Vinho e fogo

Pontal do Paraná, litoral do Paraná, 2005

Essa foto foi tirada há quase 6 anos, em Julho de 2005. Naquela época, eu tinha uma Sony V3, uma compacta avançada, mais ou menos no estilo das Canon G de hoje em dia. Apesar de não ser uma reflex, me serviu bem, e para essa foto específica não faria diferença relevante ter meu equipamento atual. Não vou tentar desmistificar aqui a velha falácia do “equipamento melhor = fotos melhores”: não é o propósito deste post. Vou apenas citar diretamente a conclusão final (minha e de alguns outros fotógrafos): equipamento é um limitador. Existem situações em que um equipamento melhor possibilita uma foto que é de outro modo impossível, mas ele nunca melhora automaticamente todas as fotos que você faz.

De volta à foto em questão: era uma noite razoavelmente fria na praia, e fizemos uma fogueira. Tínhamos uma garrafa de quentão (confesso que intitulei a foto de maneira enganosa só pela melhor sonoridade), e depois de tirar algumas fotos do fogo, me interessei por incluir a garrafa. Essa era a primeira de uma série: nas seguintes, mudei o ângulo para que o fogo não ficasse exatamente atrás da garrafa, incluindo-o no frame de maneira bem visível. Naquela época não tinha estudado fotografia ainda (nem mesmo a parte técnica básica), então, com exceção da primeira, todas saíram fora de foco. Ironicamente, hoje fico feliz que isso tenha acontecido, pois me lembro de ter preferido a composição das outras — que agora acho muito piores — e só ter escolhido essa para representar a cena por ser a única tecnicamente boa.

O aspecto mais determinante na foto é a contra-luz. É por ela que a silhueta é moldada, que a refração no vidro preenche o interior da garrafa e destaca mais seu padrão gradeado, e que resulta nos reflexos delineantes extremamente agudos na alça e na boca. E finalmente é também por ela, em conjunto com a fotometria pela própria fonte de luz, que faz com que o fundo e a garrafa se tornem completamente negros. Por sorte no momento do disparo não havia nenhuma labareda no pescoço da garrafa: na minha opinião, a foto seria destruída sem o vazio instigante que ali ficou.

Tudo nessa foto foi definido quase ao acaso: o enquadramento (que acabou sofrendo corte posterior), a posição, a exposição (que foi simplesmente a fotometria da máquina em modo multi-segment), o white balance, o fundo, a construção dos elementos. Mas no fim não importa: essa ainda é uma das minhas fotos favoritas. E não por causa do processo — ou talvez, de maneira contraditória, justamente por causa da falta dele — mas pelo resultado. E isto também não implica em dizer que o anteparo técnico deva ser abominado ou desprezado, mas isso já é outra história.

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