abcdefghij

Instituto Inhotim, Brumadinho, Minas Gerais, 2010

Quando se trabalha com motivos que apresentam forte caráter geométrico e se deseja explorá-lo como função definidora de uma fotografia, aconselho tomar cuidado redobrado com a perspectiva para que ela trabalhe a favor da geometrização, e não contra. Isso porque na tradução de algo tridimensional para uma de suas representações bidimensionais possíveis não se pode (geralmente) dar a impressão de que um elemento resultante não reforça a mensagem, não se encaixa ao desenho. Um resultado abstrativo é tão forte quanto a unidade de seus elementos, a coesão que eles apresentam, sem algo que pareça incidentalmente dissonante apenas porque “é assim que era o objeto no mundo real”.

Nesta fotografia, da obra “Piscina”, de Jorge Macchi, queria um resultado rigorosamente geométrico, com uma divisão limpa na metade, explorando o contraste entre a parte clara e a escura. Apesar de não estar com a perspectiva achatada (o que seria possível só com uma meia-tele a vários metros acima do chão), as linhas de fuga não parecem fora de propósito, como um inconveniente inevitável, fruto da origem mecânica da fotografia. A posição faz com que a linha central seja projetada reta — e um mínimo deslocamento lateral faria com que ela se tornasse um serrilhado, com os perfis de cada degrau evidentes, tal qual sua sombra. O desenho resultante é de natureza bidimensional ao mesmo tempo que representa (ilustra) a profundidade tridimensional, mas o faz dominando-o e incorporando-o às suas próprias regras.

Fiquei feliz com a luz do sol, com céu limpo, e o horário em que cheguei à obra, por acaso. A luz dura combinava com a geometria, os contornos pungentes das letras, as linhas transversais e os degraus. Caso fosse manhã, perderia as sombras: da direita para a esquerda as alturas dos objetos só fazem aumentar. Seria uma outra foto, com um bloco monotônico à direita (a água), e sem a profundidade (com sua progressão explícita) nos degraus.

A foto, como se pode perceber, está invertida: para que saísse desse jeito, precisaria segurar a máquina de ponta-cabeça. Ao invés disso, eu poderia ir até o outro lado da piscina para ter algo à primeira vista similar — a única diferença seria a inversão na perspectiva, com as últimas letras maiores ao invés das primeiras — e de fato essa havia sido minha primeira tentativa, mas eu queria a ênfase no “A”, o início, marco prontamente reconhecível por qualquer um, então não me contentaria com ele possuindo a menor mancha visual. Também queria que ele ocupasse o topo, seguindo a ordem comum de leitura, então por isso rotacionei a foto para obter o resultado final. Além disso, se ele permanecesse de ponta-cabeça a legibilidade imediata se perderia, e o observador poderia achar que haveria alguma significância na inversão, pois ela pareceria intencional. Por último, desse modo a perspectiva representada foge à esperada como sendo “natural”, o que enfraquece a função representativa da imagem, algo que sempre estimo em abstrações ou desenhos geométricos.

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