Pegando água

Margem do Reno, Colônia, Alemanha, 2007

Entre os fotógrafos de paisagem, convencionou-se chamar a luz obtida logo após o nascer do sol e antes dele se pôr como “luz mágica”, e esse curto período de tempo (geralmente fixado arbitrariamente em uma hora) como “hora dourada” ou mágica. Isso porque nesse horário a luz do sol apresenta uma qualidade singular, temperatura de cor baixa e posição quase lateral, lançando longas sombras, realçando texturas e relevos (o que é de extrema utilidade em paisagens).

O fato do sol nesse tipo de ocasião estar muito baixo traz um problema quando se tem algo alto em volta (como prédios ou colinas): é comum eles lançarem sombras sobre o motivo, o que faz com que a luz, ao invés de mágica, seja tal qual a de um início de noite. Por outro lado, esse mesmo fenômeno permite uma situação fortuita que já encontrei muitas vezes, na qual se formam pequenos bolsões ou faixas iluminadas (entre as sombras de dois prédios, por exemplo). Isso define uma luz interessante para retratos, pois garante uma boa separação em relação ao fundo (já que ele vai estar em um tom muito mais escuro). Os obstáculos funcionam nesse caso como gobos, restringindo a luz a uma área específica.

Essa foto ilustra bem essa conjunção de fatores: ela foi tirada às margens do Reno, em Colônia, com uma tele. À medida que o sol se pôs, percebi que a luz mágica localizada estava se formando, e fixei a atenção em um casal com filho pequeno que se encontrava exatamente em um desses bolsões de luz. Esperava por algum momento “pai e filho” ou “mãe e filho”, um de meus temas recorrentes, mas não houve nada de aproveitável. Depois de alguns minutos o garoto, querendo água para brincar na areia, foi até a margem do rio para pegá-la.

Achei que o contraste de uma situação razoavelmente comum em praias com as roupas inusitadas para ela criariam uma cena interessante. A luz contribuiu, dando uma certa dramaticidade e reforçando o caráter de situação atípica já desvelada, além de garantir a já mencionada separação, nesse caso ainda mais intensa em função dos cabelos loiros. Há quem argumente que fotos de crianças deveriam focar em suas expressões, e não há nada de errado com isso, mas não creio que é uma regra aplicável nesse caso: a foto não é da criança, é da combinação de seu ato com suas roupas. O rosto em evidência só roubaria a atenção do real motivo da foto.

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Uma resposta em “Pegando água

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