Listras

Parque Tanguá, Curitiba, Paraná, 2009

Já era hora de falar sobre a foto do cabeçalho deste blog. Ela foi feita no segundo piso do mirante do parque Tanguá, em Curitiba, que tem formato semi-circular e é margeado por essas colunas. Este era um dia em que tinha saído exclusivamente para fotografar sozinho, e estava mentalmente um pouco perturbado, o que para mim favorece o abstracionismo, pela sua natureza introspectiva.

Colunas são elementos arquitetônicos muito explorados, pela geometria e pelo ritmo sempre presente (afinal, é comum elas se apresentarem em conjunto, com espaçamento uniforme), além de definir formas com facilidade, uma vez que atuam como anteparos para a luz e quase sempre estão em uma distância razoável de outros elementos que refletem a luz de volta em sua face não-iluminada.

Neste caso, as colunas tinham uma incomum base retangular, o que substitui o comum degradê no corpo da coluna entre a sombra e a parte iluminada por uma transição aguda entre duas faces planas. Neste dia, no meio da tarde, o sol estava à esquerda, relativamente baixo, em tal ângulo que permitiu a formação da transição suave sob a forma de listras entre as sombras absolutas, na parte superior, e o chão. Assim, horizontalmente as transições tonais são abruptas e definidas, enquanto que verticalmente se apresenta a dicotomia claro-escuro em duas pesadas massas, ligada pelas listras, conciliando-as levemente. Ao focar a atenção nas listras, perde-se a referência tridimensional representada por elas, que se tornam sombras imateriais chapadas, desprovidas de perspectiva.

Inclinei a câmera de modo a enquadrar a porção que interessava das colunas, além de, como no caso dos triângulos na estrada, afastar o observador da percepção figurativa da cena e introduzir uma certa tensão. A escolha de distância focal (24mm em fator de crop 1,5) foi baseada nas curvas resultantes das partes superiores e inferiores das colunas: uma grande-angular maior teria revelado um pouco mais do fim da curva (onde ela é mais acentuada) e uma normal ou meia-tele resultaria em curvas suaves demais (somente a porção central da foto acima). A altura passou por ajustes finos até que ambas as curvas parecessem simétricas.

A poça d’água, na ocasião, me incomodou bastante, mas achei que procurar outra parte seria em vão: havia poças por todo lado, e o ângulo da luz já seria diferente. Posteriormente, após revelar o RAW e fazer a conversão p&b, vi que a poça não apresentou contraste excessivo, evitando que roubasse a atenção da abstração em si. De fato, passei a gostar dela, pois acabou se alojando de maneira elegante na posição de elemento do segundo momento (só é percebida pela varredura secundária do olho), funcionando como uma pequena quebra, como um pequeno chamado de volta ao figurativismo, trazendo o observador de volta.

Finalmente, um terceiro momento, o qual me passou despercebido na ocasião, são as listras não das colunas à direita, mas das colunas à esquerda, com transições muito mais suaves e sem ritmo, mas ainda listras, sombras etéreas.

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