Não gosto de turistas

Ilha de Uros no Lago Titicaca, Peru, 2009

Em retratos, um dos erros mais comuns cometidos por iniciantes (eu arriscaria até dizer que ele é o mais comum, à frente de problemas de enquadramento) é não refletir sobre o fundo. Um fundo pode prejudicar um retrato na medida em que diminui a objetividade, por ser poluído e chamar a atenção do observador ou introduzir desenhos indesejados, ou pode contribuir, contextualizando, adicionando cor ou contraste, sendo visualmente agradável.

Para retratistas, é sempre importante pensar na separação: a distinção visual entre o retratado e o fundo. Com baixo contraste entre eles, por mais que a foto seja ainda obviamente identificável, ela perde força, pois o olhar não se concentra no retratado, e em alguns casos não tem ideia clara sobre onde um começa e o outro termina. Há uma certa carência de material bem editado sobre isso na Internet, então quem tiver interesse em ler mais sobre esse assunto, eu recomendo “Master lighting guide for portrait photographers”, de Christopher Grey.

A foto acima apresentava um problema com o fundo: além de poluído, havia dois elementos de cores saturadas, que distraíam o olhar já no primeiro instante de observação da foto. Mudar a posição da câmera remediaria isso — um passo à esquerda poderia fazer tanto a sacola quanto o painel, visível no canto superior esquerdo, ficarem fora do quadro — mas eu não podia fazê-lo, pois estávamos sentados, assistindo a uma apresentação sobre o povo de Uros.

De qualquer maneira, a expressão da menina — a única de um grupo de 5 ou 6 crianças que não parecia gostar nada da nossa presença — me fez insistir na tentativa de retratá-la. Esperei pelo momento certo, em que ela estivesse com o nuance expressivo e postura que julguei mais adequados, e cliquei. Achava que a foto seria inaproveitável, mas na pós-produção me dei ao trabalho de maximizar o contraste entre a retratada e o fundo durante a conversão para preto e branco, além de minimizá-lo entre o fundo e os dois elementos detrativos, o que só foi possível depois de mais edições locais com máscaras.

Nesse ponto, é comum crer que o principal fator para a separação, nesse e em outros casos, é o bokeh (a intensidade e natureza do desfoque), mas o contraste luminoso ainda desempenha o papel principal. Bokeh nem pós-processamento algum podem consertar um fundo problemático. Eles só atenuam o problema.

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3 respostas em “Não gosto de turistas

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