On white 2b

Curitiba, Paraná, 2011

Esta foto foi feita como um exercício para a pós-graduação em fotografia e imagem em movimento da Universidade Positivo. A proposta era fazer uma releitura de uma obra de arte, à escolha do aluno, que depois deveria servir como substrato a um texto a ser escrito em equipe. Não havia grandes pretensões: era um exercício com prazo de poucas horas, focado mais na experiência do processo do que nos resultados. A proposta foi passada às 23:00 de sexta-feira, para que a foto pronta fosse mostrada à equipe às 9:30 da manhã do sábado.

Nas considerações sobre qual obra escolher, primeiro considerei alguma das homenagens ao quadrado de Albers, um favorito pessoal de longa data. Abstracionismo minimalista geométrico e de estrutura elegante. A dificuldade de materialização em uma foto, porém, me fez considerar outras opções: Kandinsky, Mondrian, chegando depois a abrir para qualquer outra coisa, onde considerei Gursky, Duchamp e outros, à medida que ia tentando desenvolver ideias avulsas partindo de objetos que tinha em casa (não queria ter de sair para fazer a foto, já que ia tomar ainda mais tempo).

Observando meus livros na estante, retomei uma antiga impressão que eu tinha, de como eles formavam blocos geométricos interessantes, com variações de cores e uma profusão de tipos. Considerei montar alguma coisa empilhando-os, tal qual a série Constructed Ataxia, mas os livros têm proporções que limitam as possibilidades de formas a ser obtidas. Depois de gastar alguns minutos pensando se haveria como contornar o problema, desisti por não definir um bom objeto a ser construído e também por acreditar que a foto resultante não fosse por si só a releitura, papel que caberia à pilha de livros. Para que a foto fosse a releitura, algum aspecto inerente a ela teria de ser determinante para que a relação com a obra original fosse estabelecida (tal qual a foto acima, que só solidifica a referência à obra original por ser feita a partir desta posição e com este enquadramento).

Por fim, acabei voltando ao abstracionismo. Pensei em usar os livros para fazer referência a Mondrian, mas novamente a proporção entre altura e largura dificultavam a tarefa. Acabei decidindo por uma obra de Kandinsky, intitulada “On white II“, cujas massas imaginei poder recriar com os livros em diferentes posições. Havia se passado cerca de meia hora, então defini que seria essa a proposta e dei início à execução. Estendi um lençol sobre o chão e comecei a dispor os livros, tentando seguir o mesmo esqueleto formal básico da obra original, sem entretanto reproduzir cada forma e arranjo individuais. Tentei procurar uma placa antiga de poliestireno que ia proporcionar um fundo branco e uniforme, mas acabei gostando do lençol, considerando que seus vincos não iam ser fortes o suficientes para competir visualmente com os livros e então iam acabar funcionando como textura e elementos complementares.

Sabia que ia ser preciso uma altura considerável para evitar uma perspectiva acentuada demais, que predominasse sobre o desenho bidimensional. Por esse motivo, preparei a cena ao lado da cama, para que pudesse posicionar a máquina de pé sobre ela. Para a luz, posicionei um flash à direita em um tripé a mais ou menos 2m de altura, refletido em sombrinha branca e acionado por ligação direta com a câmera. Para preencher as sombras, um outro flash à esquerda, na altura dos livros, como slave e com um difusor, já que mesmo em 1/64 da potência ele ainda estava mais forte do que o desejado. Eu ainda não estava satisfeito com a iluminação (preferia mais difusa, com softbox, e com um enchimento melhor), mas a considerei como o que eu costumo chamar de “razoável o suficiente”.

O maior problema era a câmera em si: ela não só precisava ficar centralizada ao arranjo (o que por si só já impede que eu olhe através do visor) como também precisava ficar em uma altura considerável e virada para baixo, o que força uma postura complicada. Como a luz era escassa, também foi preciso utilizar o foco manual, confiando na escala na lente e no meu senso de medida, mas a pior complicação foi o fato da lente se estender por conta de seu próprio peso, o que fazia com que eu tivesse pouco tempo para disparar antes que os 24mm iniciais se transformassem em 80 (na verdade eu queria aproximadamente 35, e para isso partia dos 24). Por sorte, depois que a iluminação e o foco já estavam definidos, bastaram algumas tentativas para conseguir um enquadramento razoável, que poderia ser cropado posteriormente. Este processo todo demorou cerca de uma hora, o que somado aos 30 minutos de planejamento acabou ficando dentro das minhas expectativas de finalizar o exercício em menos de duas horas.

Por fim, revelei o RAW cropando da maneira desejada, excluindo inclusive um pedaço em que o fim do lençol se fazia visível, e rapidamente levantei as sombras dos livros na parte superior direita, que estavam tonalmente abaixo das outras por não terem sido afetados pelo flash secundário.

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