Solidão

Isla del Sol, Peru, 2009

Em uma das bordas de um grande pátio central da Isla del Sol, situada no lago Titicaca, uma mulher sentava-se à mesa, sozinha e aparentemente sem propósito (não havia nada na mesa que pudesse denunciar suas intenções). Havia outras três cadeiras vazias, e o conjunto claramente remete a uma refeição, dada a toalha de mesa e suas dimensões. Seria a mesa pertencente a um restaurante, que a posicionou ali fora tal como fazem bares e cafés? Nesse caso haveria outras mesas e algo sobre elas, como cardápios, talheres, pratos ou condimentos. Caso ela morasse lá e fosse essa uma mesa de sua casa como outra qualquer, por que se daria ao trabalho de carregá-la para fora e ali esperar, debaixo de sol e sob a vista de dúzias de pessoas circulando pela praça? Por que as três cadeiras extras?

A cena é uma daquelas que se revela mais intrigante quanto mais se observa atrás de uma explicação, procurando detalhes que confiram sentido ou forneçam pistas sobre a sequência de eventos que nela resultou. Pensei quais fotografias poderiam ser realizadas a partir dela. Uma alternativa seria um enquadramento fechado, privilegiando a relação entre a senhora e as cadeiras vazias, talvez evidenciando sua expressão facial. Nesse contexto, não seriam dadas informações sobre o meio em que ela se encontrava, definindo a mensagem como solidão, tal qual a foto acima, porém de modo diferente, pois o observador poderia imaginar que esta mesa seria somente uma entre várias.

Outra alternativa seria um enquadramento amplo, que destacasse a singularidade da mesa e sua localização inusitada, em frente a fachadas de lojas e junto a um grande vazio. Essa alternativa se ramificaria entre mostrar o ambiente até que a praça inteira fosse revelada, com seus transeuntes espalhados e mostrando um certo isolamento; ou o enquadramento usado acima, em que nenhuma outra pessoa ficasse visível, o que torna a mensagem mais centrada na solidão pela ausência, e não pelo isolamento.

Uma terceira alternativa que imaginei na hora era uma foto por trás dela, que pertenceria à minha série “dê as costas” e mostraria a amplitude vazia do pátio, juntamente com os transeuntes à distância, colocando-a como observadora alheia (voluntariamente ou não) às outras pessoas. Acabaria não conseguindo realizá-la, contudo.

De onde estava, o segundo andar de uma construção adjacente, optei por começar pela segunda alternativa. Entre suas ramificações, escolhi omitir o resto da praça, pois muitos outros elementos iriam aparecer e a foto perderia em objetividade e simplicidade. Comecei considerando colocar a mulher na parte esquerda do frame, visto estar ela virada para a direita (o que comumente requer um respiro maior naquele lado), mas percebi que a mensagem seria mais clara com ela centrada, sem deixar dúvida de que aquela era a única mesa no local e fortalecendo a ideia de que estava cercada pela ausência de outras mesas.

Formava-se assim o que Arnheim chama de microtema: concentrado no espaço com maior peso visual está o tema da imagem como um todo. A solidão da mulher sentada em uma cadeira, com três cadeiras vazias em um semi-círculo à sua frente se repete com a mesa, também carente de seus semelhantes à sua volta.

Fiquei feliz ao constatar que neste horário do dia as fachadas das lojas atrás se encontravam à sombra: seus tons ficariam muito inferiores ao resto e o contraste seria pequeno o suficiente para relegá-las ao fundo, perceptíveis em um segundo momento. A massa escura atrás dela atua como um reflexo psicológico de sua situação, tal qual uma sombra evidente a um observador externo mas completamente ignorada justamente por quem é afetado por ela. Por sorte, daquela altura o corpo da mulher era a única massa que invadia a parte tomada pela sombra, dando a ela ótima separação.

Depois de descer, fui falar com a senhora. Seu nome é Ascension, e ao ser indagada por que ali se senta, com três cadeiras vazias à mesa, responde com perturbadora serenidade:
– Porque quero ficar sozinha.

(Na verdade, quando desci ela não estava mais lá. Mas gosto de imaginar que o diálogo acima tivesse acontecido).

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2 respostas em “Solidão

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