Superagui

Ilha de Superagui, Paraná, 2011

Na minha opinião, o uso de lentes olho-de-peixe é muito pouco explorado por fotógrafos de paisagem, principalmente no Brasil, dada a escassez de material informativo, referências e dificuldade de encontrá-las à venda. A maioria das vezes elas são descritas como especializadas para fins científicos ou como “gimmick”, um efeito especial sem utilidade de fato. Também é dito que não haveria necessidade em se comprar uma olho-de-peixe, pois a distorção característica poderia ser emulada no Photoshop. Eu discordo enfaticamente.

Para começar com este último ponto, a distorção pode ser, sim, feita no pós-processamento, mas como toda alteração no arranjo espacial dos pixels, há necessidade de interpolação e consequente perda de nitidez. Além disso, uma olho-de-peixe é sempre mais barata, menor e leve do que uma grande-angular de projeção retilínia com ângulo de visão equivalente, e do mesmo jeito que a distorção pode ser introduzida, ela também pode ser corrigida caso a distorção seja indesejada.

O que mais me estimula ao uso das fish-eye, contudo, é justamente a sua distorção: o enquadramento passa a exigir uma preocupação adicional de outra natureza, pois dependendo da posição no frame linhas retas se transformam em curvas; estas, por sua vez, podem ser suprimidas, exageradas ou mesmo assumir uma forma sinuosa. Combinando isso com a possibilidade de recorte posterior se tem uma gama enorme de possibilidades formais a partir do mesmo referente, fato que favorece especialmente abstrações e é um deleite para formalistas convictos como eu.

Chegando finalmente à foto em questão: ela é um recorte de uma porção um pouco acima do meio de uma foto muito maior, feita na vertical, mas que precisava ser desse modo para se obter a curvatura do horizonte desejada (estivesse ele mais acima no frame e a curva seria mais intensa, ao meio ele se manteria reto e abaixo se converteria na curva contrária). Desse modo também se evita a grande diferença de tamanho entre objetos a distâncias diferentes, pois efetivamente é como se uma distância focal maior tivesse sido utilizada, porém com a distorção da olho-de-peixe.

No mais, defini os reboques de canoas como elemento a ser contraposto ao pôr-do-sol, já que este, por si só, dificilmente gera interesse visual em uma foto; defini a exposição quase 2 stops abaixo da fotometria para reter detalhes nas altas-luzes e concentrar o contraste nelas e não nas sombras; imaginei um white balance que mostrasse claramente a transição das sombras azuladas até um início de amarelo nas partes mais diretamente afetadas pelo sol, com uma parte da luz compensada para o neutro. Apesar do white balance na câmera só afetar o jpeg (e portanto ser possível defini-lo na revelação do RAW sem prejuízo), gosto de já visualizá-lo de modo aproximado ao que penso ser minha futura interpretação final.

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3 respostas em “Superagui

  1. Leandro;
    Sou meio encantado com a distorção da Olho de Peixe. Nossa percepção do mundo não é rectilinear, o que é rectilinear é a perspectiva cônica da qual a fotografia com imagem rectilinear é prima-irmã. Mas na verdade, ao vivermos e habitarmos os ambientes nós os experimentamos um pouco distorcidos e não de geometria perfeita/cartesiana. Contudo, a maioria das fotos com olho de peixe que vemos na rede não me parece de fato embutirem uma concepção própria para esse tipo de elnte. A grande maioria é tão somente um “mostrar o efeito”, sem uma idéia compositiva baseada na distorção.
    Gostei da sua foto. Muito bonita.
    Abraços
    Ivan

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