Espiral em círculos

Paris, França, 2008

Escadas em espiral são um tema comum: sua natureza curvilínea ritmada — que poderia se estender infinitamente — pode ser explorada de várias formas, dada sua tridimensionalidade: de perfil, tal qual a representação de hélices de DNA; diretamente a partir de seu eixo com a máquina apontada para cima ou para baixo, formando uma espiral como a de caracóis; ou uma variação desta última, sem que a câmera se alinhe ao eixo, como na foto acima.

O que a motivou não foi na verdade suas características formais, apesar de terem sido elas que me chamaram a atenção em um primeiro momento. Meu interesse estava em um andar específico, no qual a lâmpada não era igual às dos outros andares: havia uma lâmpada fluorescente entre as incandescentes. O fato de fotos de outras pessoas do mesmo local tiradas em épocas anteriores mostrarem iluminação uniforme me leva a crer que a presença dessa lâmpada ímpar foi fruto de um improviso, sendo ele mais uma daquelas variáveis imprevisíveis que acabam definindo uma fotografia específica.

Assim como na foto “luz mista”, quis aproveitar o contraste entre as duas temperaturas de cor presentes como elemento visual: a região afetada quebraria o ritmo geométrico rigoroso, tornando a foto um pouco diferente da maioria das fotos de escadas em espiral. Para isso, já imaginei o white balance definido para a luz incandescente, de modo a criar uma região azul destoante que seria o foco visual.

Quanto à posição da câmera, a princípio queria alinhá-la ao eixo, mas tive que segurá-la contra o corrimão para ter estabilidade. A partir daí escolhi a distância focal que não incluísse muito do andar em que estava, e acabei gostando mais dessa posição: a espiral só era evidente em sua primeira volta. A perspectiva tornava visível não só o corrimão como também os dois anteparos paralelos a ele na altura das pernas e todas as colunas que unem o conjunto, que apresentava a forma de cunha. Já na segunda volta o corrimão passa a ser o único elemento visível, e a espiral se torna uma série de círculos tangenciados em sua porção inferior, descaracterizando ainda mais a espiral. Julguei que essa quebra no padrão se adequava bem ao foco em azul, definindo juntos uma fotografia de escada em espiral que não é uma fotografia de escada em espiral.

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2 respostas em “Espiral em círculos

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