Vaso gradeado contido

Monastério de Santa Catalina, Arequipa, Peru, 2009

Uma coisa que digo constantemente para os meus alunos é que eles precisam entender como a câmera enxerga as coisas, pois isto — juntamente com a transformação do negativo digital em fotografia, e de sua reprodução em um meio — é que forma a linguagem fotográfica, sendo ela completamente diferente da usada pela visão humana (embora seja ironicamente subordinada a ela). Com a possibilidade de visualização instantânea da fotografia digital, todo o processo de imaginar como uma situação observada ao vivo será traduzida para a linguagem fotográfica (chamado por Ansel Adams de pré-visualização, e para o qual ele criou o famoso Sistema de Zonas) foi relegado a um segundo plano, considerado menos importante do que coisas como a operação da câmera ou o pós-processamento.

A noção de que não é mais preciso conseguir prever como será a foto final pelo fato de ser possível vê-la logo depois do click é perigosa por vários motivos, dos quais somente um é o assunto deste post. Existem muitas situações que podem ser exploradas exatamente em função da diferença entre a percepção luminosa por parte da câmera e por parte dos olhos. Ao ignorar (ou não se preocupar com) essas diferenças, as fotografias possíveis nem são consideradas pelo fotógrafo, que está à procura de coisas que apeteçam seus olhos (seja isso segundo uma estética formalista, documentária ou qualquer outra).

A foto acima apresenta um bom exemplo. Eu me encontrava dentro de um aposento, que possuía uma janela gradeada com um vaso pendurado do lado de fora. Não havia fonte de luz dentro, mas a luz que entrava pela janela e pela porta eram mais do que suficientes para enxergar o interior sem qualquer problema. Do outro lado da janela havia uma parede azul, o que formava um corredor, que por sua vez era coberto. A alguns metros à esquerda o corredor dava lugar a um pátio, sendo este descoberto. Portanto, a única fonte de luz na cena é a luz natural, que entra por meio do pátio e chega ao corredor pela esquerda, iluminando a parede e o vaso de maneira direta, e o interior da sala onde eu estava de maneira indireta (por reflexão).

Parece óbvio dizer que o vaso e a parede vão apresentar níveis de luminosidade muito acima dos percebidos no interior do aposento, mas não é isso que os olhos enxergam: a adaptabilidade maior dos olhos (incluindo aí o fato de eles perceberem a luz de maneira não-linear) e a constante contração e dilatação das pupilas faz com que seja possível enxergar a cena inteira com um nível de luminosidade parecido. Ou seja, aos olhos, não há silhueta, quadro dentro de quadro ou a iluminação lateral aguda sobre o vaso presentes na foto acima. Sem pré-visualização ela não existiria, já que foram esses fatores que geraram o meu interesse. Pré-visualização não serve só para definir os tons da foto de acordo com as intenções do fotógrafo; ela já é importante desde o primeiro filtro, a primeira seleção do motivo ou referente, mapeando as fotografias possíveis para então desenvolvê-las.

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