Ale e a pipa

Colônia, Alemanha, 2008

Uma das decisões mais difíceis que fotógrafos de paisagem enfrentam é sobre levar ou não uma lente, um tripé, um flash ou qualquer equipamento para uma saída ou viagem. Quase sempre com informações limitadas sobre o local, nunca é possível saber com certeza se um equipamento seria crucial para uma foto importante. Por outro lado, levar sempre tudo costuma resultar em frustrações por carregar peso morto, e não é como carregar um agasalho quando faz calor ou um guarda-chuva quando não chove: são alguns quilos e volume suficiente para encher uma mochila. O peso extra acaba por atrapalhar a concentração, causar impaciência ou até impedir que se chegue a algum local específico (sem exagero: quem fotografa fazendo trekking sabe do que eu estou falando).

A foto acima foi feita em uma época em que eu estava convencido de que era preciso cortar o equipamento da lista sem dó, levando somente o que se tinha certeza de sua necessidade. Fui passear com amigos no jardim botânico de Colônia, e resolvi não levar a teleobjetiva, imaginando que não ia precisar dela. Ao chegar lá, havia um extenso gramado com várias pessoas, e imediatamente vi várias oportunidades ótimas para usar a lente que havia deixado em casa. Fiquei com um mau-humor extremo, irritado com as fotos perdidas. Como agravante ainda tive a infelicidade de pisar em merda de cachorro.

Irritado, me afastei dos meus amigos. Não tinha vontade de conversar, e eles com certeza estavam aproveitando o passeio. Foi quando uma pipa caiu aos pés deles. Percebi que a contra-luz, além de transformá-los em silhuetas bem definidas, fazia com que a pipa se apresentasse como a única forma colorida entre as silhuetas — por ser translúcida, a luz intensa que a trespassava conferia às cores alta saturação. Tirei algumas fotos, tentando conseguir um momento adequado enquanto as duas crianças donas da pipa se aproximavam. Esta foi a escolhida, pelas posturas e pela disposição da pipa: frontal, com a rabiola esvoaçante.

Aos que acham que este post tem uma moral da história enaltecendo o acaso ou algo parecido, vou deixar claro: eu ainda preferia que tivesse levado a teleobjetiva. Várias fotos com grande potencial que não pude registrar continuam na memória, e talvez as preferisse do que esta, mas não há como saber. De qualquer modo, o fato de um bom resultado ser obtido a partir de uma decisão ruim não a torna boa, tal como não há motivo para se arrepender de uma escolha prudente por mais que ela tenha consequências desastrosas. Também não quero dizer que é preciso sempre levar o máximo de equipamento, o que seria outro equívoco. O ideal é tentar determinar uma linha de corte razoável, que acomode a maioria das situações, e não se martirizar quando ela se mostrar inadequada: com informações limitadas, fotos perdidas ou peso morto ocorrerão inevitavelmente. Contudo, eles devem ser encarados com naturalidade e certo fatalismo, sem deixar que isto afete o julgamento do que levar em ocasiões futuras.

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2 respostas em “Ale e a pipa

  1. Pingback: Retrospectiva 2011 | Antes do Click

  2. Bela foto, bela fotometria, gerelamete com um ceu desse, a iamgem fica estourada. estou começando agora nessa brincadeira, e sempre me discuido de medir certo, dai ja viu, aquela merda.

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