Purungo fora da tenda

Curitiba, Paraná, 2008

Em algumas fotos cedo à tentação de provocar o observador. Não por meio de confronto com valores ou convenções sociais nem por choque emotivo, mas por um jogo em que forneço um cenário incompleto, cuja mensagem parece estar cifrada por um código. Geralmente faço isso por meio de títulos, que complementam uma fotografia que carrega para mim um significado diferente do da maioria dos observadores, levando-os a indagar sobre uma foto aparentemente simples e objetiva. Mas não é o caso desta foto.

Para a interpretação final da foto, claro, é irrelevante o que eu quis dizer com ela. A provocação não visa direcionar o pensamento do observador, mas sim forçá-lo a acontecer, qualquer seja seu rumo. Ao fornecer um quebra-cabeça, dou a ilusão de que ele possa ser resolvido com um pouco de reflexão, o que não instiga a maioria das pessoas a tentarem, mas me contento com os poucos que o fazem. Contudo, muitas vezes as pistas são demasiado escassas para que se suceda, e a mensagem é demasiada particular para que seu efeito se compartilhe. O vislumbrar de uma solução que traga sentido à fotografia é portanto ilusório. Novamente, lembro que isso não importa: todas as mensagens — inclusive as que não foram colocadas na fotografia — são válidas. Código sem mensagem, denotação desprovida de conotação, classifique esse tipo de fotografia como quiser.

Terminado o preâmbulo, chegamos à foto acima, na qual vários aspectos diferentes contribuem para seu caráter surrealista. O colar, o brinco e adereços no cabelo indicam ser uma mulher. O cabelo raspado, por sua vez, contradiz essa hipótese, mas tende a ter menos força do que os outros sinais, já que na sociedade em que vivemos é mais fácil imaginar uma mulher de cabelo raspado do que um homem portando os itens mencionados.

O enquadramento é clássico para retratos: um busto, ênfase no rosto. Entretanto, a pessoa está de costas, o que por si só nega a ideia de retrato. Não ver o rosto de uma pessoa quando ela é claramente o elemento mais importante de uma imagem aumenta o desconcerto. As roupas são pouco usuais, e o guarda-chuva pendurado consegue ao mesmo tempo parecer um elemento descabido como acessório de vestuário e como item utilitário, dado o céu limpo visível ao fundo. Este, aliás, parece não concordar com o resto da foto, cuja iluminação destoa da esperada para uma foto feita ao ar livre com luz natural.

Na cabeça, o que parece ser um adesivo vermelho exibe texto: é de se esperar que atue como legenda, explicando ao menos parcialmente as contradições do resto da foto. Nele se lê somente “9º Purungo”, com tipografia pouco usual, com subtítulo “o espetáculo”, este porém ilegível na maioria dos tamanhos de visualização. O elemento textual acaba por desnortear ainda mais a leitura da imagem. Àqueles que procurarem, existe a informação de que o 9º purungo se trata de uma convenção de estudantes de design de Curitiba, o que também não explica a fotografia.

Os que buscam um título que elucide todo o mistério, daqueles que resolvem um complexo quebra-cabeça com simplicidade e elegância, são confrontados com: “Purungo fora da tenda”. Tenda não se vê na imagem. Tampouco a significância do fato do purungo estar fora da tenda, a ponto de gastar as escassas palavras do título para afirmá-lo. Aos que, ao verem a fotografia neste post, o leram com esperanças de que eu fosse explicar como ela foi feita, e com isso saciar sua curiosidade, termino o post lembrando que nada disso importa. E que a curiosidade só existe com intensidade por se tratar da linguagem fotográfica, com seu suposto “realismo” atribuído, e portanto com a pressuposta necessidade de fazer tanto sentido quanto a realidade. Aos que me acusarem de realizar uma fotografia de maneira randômica, desprovida de significado até para mim mesmo, repreendo-os por não prestarem atenção no que escrevi acima e reafirmo: não só há um significado, como ele é irrelevante.

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Uma resposta em “Purungo fora da tenda

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