Céu centrado

Pinakothek der Moderne, Munique, Alemanha, 2009

Fotografia é uma linguagem visual bidimensional. Abstrações exploram isso, se aproveitando das diferenças de percepção entre um espaço percebido presencialmente (que inevitavelmente é dotado de contexto e outros estímulos que nos deixam claro como o local é, independente do que enxergamos) e de um espaço delimitado por uma moldura sobre um plano. Claro que, como todos já tiveram a experiência, não há dificuldade em perceber profundidade em uma imagem apesar dela não a possuir de fato, dada a perspectiva e o reconhecimento de signos (no sentido semiótico). Mas, como Arnheim demonstra, o princípio da simplicidade faz com que em determinadas situações uma interpretação pode ter mais força que outra, mesmo que a segunda corresponda de fato ao arranjo espacial que seria percebido presencialmente.

O princípio da simplicidade diz que sempre que um estímulo visual tiver múltiplas possibilidades de origem, aquele que for mais simples prevalecerá. Desse modo, uma folha de papel sobre a mesa poderia ser um retângulo que se apresenta deformado em função da perspectiva, ou poderia ser um papel trapezoidal perpendicular ao tampo da mesa, mas a primeira opção é a que vai ser percebida por ser mais simples. Isso é explorado nos anúncios publicitários colocados sobre o gramado ao lado das traves em campos de futebol, que é percebida como uma placa retangular na vertical até que um jogador corra por cima dela, quando se percebe que ela é um paralelograma na horizontal.

Na foto acima, o princípio da simplicidade opera ilusão semelhante: a fotografia é percebida como desenho bidimensional, apesar de uma racionalização dar a certeza ao observador que se trata de um objeto com profundidade. O fato de geometricamente tudo levar a uma projeção bidimensional simples impede que o percepto tridimensional ocorra. Desse modo, as faixas cinzas concêntricas não são vistas como superfícies perpendiculares aos estreitos círculos pretos (o que são de fato), mas sim como entidades independentes e coplanares a eles.

Para a ilusão se sustentar é crucial o ponto de vista exatamente centralizado: qualquer desvio faria com que a assimetria, a diferença de espessuras das linhas e formas, bem como o não alinhamento dos centros das circunferências conferisse à alternativa tridimensional o status de arranjo mais simples que poderia provocar aquele percepto.

No próximo post vou abordar as questões técnicas operacionais desta mesma foto, visto que este acabou longo o bastante tratando apenas do princípio da simplicidade.

*Esta foto foi utilizada para ilustrar um poema no blog “design Di poesia”. Veja o post aqui.

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3 respostas em “Céu centrado

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