Azul

Praia de Coki, Ilhas Virgens, 2006

O cérebro humano adora identificar padrões. Isso é essencial para o aprendizado, que trabalha com o sistema de auto-recompensa para que o indivíduo se sinta estimulado a repetir ações que trazem bons resultados. O lado negativo desse mecanismo é que muitos padrões que não existem são reconhecidos. Isso cria o paradoxo do randômico ordenado: para que alguma coisa pareça realmente aleatória é preciso cuidadosamente anular quaisquer coincidências que ocorram, pois elas deixariam implícito um padrão apesar de se tratarem somente da variância estatística normal. Assim, se uma pessoa joga um dado seis vezes seguidas, é improvável que cada número apareça uma única vez, pois isso se trata de apenas uma possibilidade entre muitas outras nas quais um dos números se repete, mas essas repetições poderiam ser interpretadas como um padrão.

Um caso famoso é o do shuffle do iPod. Ao embaralhar as músicas, é natural que em algum momento duas músicas do mesmo álbum ou da mesma banda apareçam em sequência. Os usuários, achando que o aparelho estava influenciando no embaralhamento nas músicas, reclamaram, e a Apple alterou o algoritmo, tornando-o menos randômico (ou seja, quando ele identificava as coincidências ele manualmente alterava a ordem das músicas para desfazê-las) para que ele parecesse mais randômico.

Na fotografia, a aplicação mais comum deste paradoxo é em relação ao arranjo espacial de elementos: na foto acima, as gaivotas em cada instante assumem uma distribuição diferente no espaço bidimensional. Das doze fotos que tirei em sequência, a mostrada acima é a que parece mais randômica. Todas as outras parecem de algum modo influenciadas por algum fator externo: ou elas se concentram em um dos lados, ou elas formam linhas retas, curvas previsíveis, formas geométricas. E mesmo nesta é possível identificar alguns padrões que não existem, o mais notável deles formado pelas seis gaivotas mais próximas à garota, formando uma elipse. Isso poderia até resultar em uma interpretação de que as seis voavam mais perto dela em círculos, enquanto as outras descreviam trajetórias mais caóticas, mas o fato era que todas elas variavam de altitude e distância a cada segundo.

O paradoxo maior, na verdade, é o fato de que os arranjos percebidos como randômicos também são padrões, e na verdade muito mais simples de serem descritos do que arranjos realmente randômicos. Os seis lances de dados em que cada número aparece uma vez pode ser descrito simplesmente como: números de um a seis, sem repetições. Já uma sequência randômica, por exemplo: 3, 2, 3, 6, 1, 4 teria que ser descrita como: números de um a seis, exceto o cinco, com repetição do três. E esse é um dos motivos pelos quais eles são mais agradáveis perceptualmente, tal qual as gaivotas na foto acima em comparação com as outras onze fotos. Isso se relaciona ao princípio da simplicidade descrito dois posts atrás: ambos os resultados podem ser fruto de um fenômeno aleatório, mas um deles é mais simples que o outro, e portanto tem preferência.

O que tudo isso quer dizer para a fotografia em geral? Quer dizer que, quanto mais randômico você quer que alguma coisa pareça, mais minuciosamente você precisa interferir nela.

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