Descendo

Curitiba, Paraná, 2011

Existem fotógrafos, geralmente documentaristas, que desenvolvem seu trabalho depois de contato por períodos extensos com seus assuntos. A fotografia, nesses casos, só acontece plenamente quando a situação é tão assimilada que passa a ser possível traduzi-la em toda a sua complexidade em uma única imagem. Assim surgem fotos belas e singelas, de uma concisão e elegância únicas.

Para outros, incluindo eu, a comunicação de uma realidade não é o objetivo. Às vezes por se ter como objetivo principal a estética formalista, às vezes por se almejar comunicar algo arbitrário, imprimindo seu próprio discurso e usando o motivo apenas como matéria-prima. Não defendo nem faço apologia a esta abordagem, não é este o propósito da diferenciação. São apenas métodos distintos visando resultados diferentes, que descrevi apenas para que minha próxima afirmação não seja interpretada unilateralmente.

Para mim a intimidade com o referente somente traz problemas. Encontro dificuldades para me desvencilhar de minhas bem consolidadas impressões e relações com um local, como a cidade onde cresci e morei a maior parte da vida. Afinal, se conheci a galeria da foto acima antes de ter qualquer experiência com fotografia, não consigo imaginá-la como tema a ser explorado como se a visse pela primeira vez.

Foi preciso um incentivo do grande fotógrafo Cristiano Mascaro para que quebrasse a inércia e me forçasse a sair pelo centro da cidade exclusivamente para fotografar. Só assim foi possível entrar em conflito direto com a Curitiba que já habitava minha memória, substituindo-a por um olhar deslumbrado de quem a conhece pela primeira vez. Foi preciso vencer algumas resistências por meio de paralelos com situações semelhantes em outras cidades, principalmente na questão da segurança: curiosamente, percebi que o medo que tinha de andar no Centro com câmera em punho era até certo ponto infundado, pois sob análise imparcial percebi que o risco, ainda que existente, era o mesmo que enfrentei em diversas outras situações.

É fácil para qualquer um perceber a evolução de sua fotografia com o tempo. Também é fácil perceber que o mesmo motivo fotográfico rende fotografias de naturezas diferentes, dados diferentes estágios dessa evolução. Então não deveria ser difícil chegar à conclusão que todo tema é inesgotável; toda cidade é todo dia uma nova cidade; basta a disciplina e humildade de aceitar o fato de que sempre há mais possibilidades do que se é possível contemplar.

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Uma resposta em “Descendo

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