Catedral de Santiago

Santiago, Chile, 2011

Interior de igreja, câmera a partir do centro da nave virada para o altar: fotografei mais de uma centena de igrejas assim. No início era um tema recorrente e que me agradava: a simetria, os detalhes arquitetônicos. Depois de um tempo, dei o assunto como esgotado. Continuei a fazê-las, mas apenas como lembrança de viagem, o que continuou por um bom tempo e só foi quebrado em uma ocasião atípica, que relatei neste post. Ainda assim, acreditava ter sido uma fortuita conjunção de fatores externos que não se repetiria.

Na seleção de quais fotos passariam pelo pós-processamento completo, quase não escolhi a foto acima. Era apenas mais um altar de igreja, não haveria nada de novo a se extrair dali para mim. Mas me detive um pouco e decidi escolhê-la, ainda sem entender exatamente o motivo; ela me parecia diferente, carregava algo nebuloso que me fazia crer que tinha potencial.

Depois de finalizada, tinha certeza que gostava dela. Mas só percebi o que havia de diferente nela depois que revi várias fotos de outros altares. Não se trata de uma diferença radical, mas sim de um conjunto de várias diferenças sutis, as quais não vou entrar em detalhes aqui porque creio que a apreciação delas é dependente de todas as outras fotos de altares que já tirei, e portanto pessoal e intransferível. Coisas como um rigor formalista mais minucioso, uma outra leitura da luz, o cuidado maior com a perspectiva vertical e uma abordagem de pós-processamento mais refinada.

Talvez outras pessoas, comparando as fotos, também percebam diferenças e possam explicá-las, narrá-las. Mas não creio que suas narrações ou valorizações sejam similares às minhas — e com isso não quero incutir nenhuma espécie de julgamento de superioridade ou inferioridade — porque elas constituem um conjunto de experiências que levaram à apreciação de uma ou outra coisa, portanto criando uma cultura pessoal introspectiva própria e única. Acho que isso é o mais importante em um trabalho autoral. O curioso é que nunca pensei nas minhas fotos de altares como fotografia autoral.

Em retrospectiva é fácil para mim julgar ingênuo e arrogante meu veredito de que esse tema estava esgotado. Afinal, abundam exemplos de fotógrafos que exploram um mesmo tema durante décadas, sempre com transformações não apenas qualitativas como também de natureza. Mas essa situação com certeza se repete com muitos fotógrafos, insuspeitos de que possam encontrar um prazer novo fazendo o mesmo. É preciso lembrar que o aprendizado é logarítmico, ou seja, quanto mais se avança, mais esforço e tempo é necessário para se conseguir um progresso cada vez menor. Explorar novos aprendizados pode ser excitante e motivador, mas insistir em antigos traz um tipo de satisfação diferente: mais complexo, sutil e instigante.

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