Fim de tarde em barcelona

Barcelona, Espanha, 2008

Quando se fala em exposição e white balance, é comum as pessoas acabarem escravas do próprio perfeccionismo e buscarem somente o que elas julgam uma foto bem exposta e com cores neutras. Já mencionei em outros posts que prefiro o termo “literal” ao invés de “correto” tanto para exposição quanto para white balance. Não porque seja realmente contra seu emprego (tanto do termo quanto dos parâmetros), mas porque gosto de manter sempre a lembrança de que o “literal” — ou seja, a representação mais crua, seguindo os cânones mentais de como os objetos deveriam ser — é só uma das possibilidades. A linguagem fotográfica não é realista, por mais que tenha tal propriedade atualmente a ela atribuída. Logo, não faz sentido buscar tal realismo, sendo ele por ela inalcançável, já que é tão idiossincrática e deturpadora quanto a pintura ou o desenho.

Na hora em que tirei a foto acima, ainda não tinha imaginado o resultado acima (tanto que expus normalmente e com white balance literal). Estava inclusive lamentando o tempo nublado, que causava uma luz difusa e uniforme, que a meu ver seria menos adequada à cena do que uma luz dura e contrastante. O que havia me atraído foi inicialmente a interação dos trilhos com o galpão e o céu acima, decidindo incluir o trem posteriormente com uso de grande angular na vertical.

Durante o pós-processamento, ao trabalhar o contraste no céu para aumentar a visibilidade dos raios de sol, pensei em fazer a alternativa acima. Uma subexposição leve, com os tons trabalhados com cuidado para garantir um contraste razoável apesar de tudo ficar abaixo dos meios tons. Tinha receio que o resultado ficasse inverossímil, pois uma coisa é algo não ser a realidade; outra completamente diferente é não remeter a ela, como um mágico que não consegue ocultar o caráter mundano de seus truques. Alterei o white balance para ficar mais de acordo com a subexposição, garantindo assim uma relação coerente que desviasse a atenção do fato do sol estar alto no céu.

Um dos maiores empecilhos no entendimento da linguagem fotográfica é justamente essa relação indicial (no sentido semiótico) com a realidade. Mas só ao conseguir desconstruí-la é que é possível aproveitar suas particularidades e almejar fotografar o que não existe como realidade, mas persiste como fotografia.

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2 respostas em “Fim de tarde em barcelona

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