Retrospectiva 2011

Comecei este blog em fevereiro. Desde então, escrevi 42 vezes aqui. A enorme maioria dos leitores o descobriu nos últimos meses, e portanto imagino que tenha lido somente uma parcela do que já foi publicado, mas às vezes não tem disposição para vasculhar os arquivos. Vou listar aqui então os que foram, na minha opinião, os dez melhores posts desse primeiro ano (independentemente da categoria e sem ordem específica). Caso algum leitor mais antigo discorde da minha seleção por favor comente, pois tenho curiosidade de ver as listas de outras pessoas.

Azul

Purungo fora da tenda

Altstadt

Céu centrado

Figura frontal

Solidão

Abcdefghij

Ale e a pipa

Descendo

Fim de tarde em Barcelona

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Catedral de Santiago

Santiago, Chile, 2011

Interior de igreja, câmera a partir do centro da nave virada para o altar: fotografei mais de uma centena de igrejas assim. No início era um tema recorrente e que me agradava: a simetria, os detalhes arquitetônicos. Depois de um tempo, dei o assunto como esgotado. Continuei a fazê-las, mas apenas como lembrança de viagem, o que continuou por um bom tempo e só foi quebrado em uma ocasião atípica, que relatei neste post. Ainda assim, acreditava ter sido uma fortuita conjunção de fatores externos que não se repetiria.

Na seleção de quais fotos passariam pelo pós-processamento completo, quase não escolhi a foto acima. Era apenas mais um altar de igreja, não haveria nada de novo a se extrair dali para mim. Mas me detive um pouco e decidi escolhê-la, ainda sem entender exatamente o motivo; ela me parecia diferente, carregava algo nebuloso que me fazia crer que tinha potencial.

Depois de finalizada, tinha certeza que gostava dela. Mas só percebi o que havia de diferente nela depois que revi várias fotos de outros altares. Não se trata de uma diferença radical, mas sim de um conjunto de várias diferenças sutis, as quais não vou entrar em detalhes aqui porque creio que a apreciação delas é dependente de todas as outras fotos de altares que já tirei, e portanto pessoal e intransferível. Coisas como um rigor formalista mais minucioso, uma outra leitura da luz, o cuidado maior com a perspectiva vertical e uma abordagem de pós-processamento mais refinada.

Talvez outras pessoas, comparando as fotos, também percebam diferenças e possam explicá-las, narrá-las. Mas não creio que suas narrações ou valorizações sejam similares às minhas — e com isso não quero incutir nenhuma espécie de julgamento de superioridade ou inferioridade — porque elas constituem um conjunto de experiências que levaram à apreciação de uma ou outra coisa, portanto criando uma cultura pessoal introspectiva própria e única. Acho que isso é o mais importante em um trabalho autoral. O curioso é que nunca pensei nas minhas fotos de altares como fotografia autoral.

Em retrospectiva é fácil para mim julgar ingênuo e arrogante meu veredito de que esse tema estava esgotado. Afinal, abundam exemplos de fotógrafos que exploram um mesmo tema durante décadas, sempre com transformações não apenas qualitativas como também de natureza. Mas essa situação com certeza se repete com muitos fotógrafos, insuspeitos de que possam encontrar um prazer novo fazendo o mesmo. É preciso lembrar que o aprendizado é logarítmico, ou seja, quanto mais se avança, mais esforço e tempo é necessário para se conseguir um progresso cada vez menor. Explorar novos aprendizados pode ser excitante e motivador, mas insistir em antigos traz um tipo de satisfação diferente: mais complexo, sutil e instigante.

Descendo

Curitiba, Paraná, 2011

Existem fotógrafos, geralmente documentaristas, que desenvolvem seu trabalho depois de contato por períodos extensos com seus assuntos. A fotografia, nesses casos, só acontece plenamente quando a situação é tão assimilada que passa a ser possível traduzi-la em toda a sua complexidade em uma única imagem. Assim surgem fotos belas e singelas, de uma concisão e elegância únicas.

Para outros, incluindo eu, a comunicação de uma realidade não é o objetivo. Às vezes por se ter como objetivo principal a estética formalista, às vezes por se almejar comunicar algo arbitrário, imprimindo seu próprio discurso e usando o motivo apenas como matéria-prima. Não defendo nem faço apologia a esta abordagem, não é este o propósito da diferenciação. São apenas métodos distintos visando resultados diferentes, que descrevi apenas para que minha próxima afirmação não seja interpretada unilateralmente.

Para mim a intimidade com o referente somente traz problemas. Encontro dificuldades para me desvencilhar de minhas bem consolidadas impressões e relações com um local, como a cidade onde cresci e morei a maior parte da vida. Afinal, se conheci a galeria da foto acima antes de ter qualquer experiência com fotografia, não consigo imaginá-la como tema a ser explorado como se a visse pela primeira vez.

Foi preciso um incentivo do grande fotógrafo Cristiano Mascaro para que quebrasse a inércia e me forçasse a sair pelo centro da cidade exclusivamente para fotografar. Só assim foi possível entrar em conflito direto com a Curitiba que já habitava minha memória, substituindo-a por um olhar deslumbrado de quem a conhece pela primeira vez. Foi preciso vencer algumas resistências por meio de paralelos com situações semelhantes em outras cidades, principalmente na questão da segurança: curiosamente, percebi que o medo que tinha de andar no Centro com câmera em punho era até certo ponto infundado, pois sob análise imparcial percebi que o risco, ainda que existente, era o mesmo que enfrentei em diversas outras situações.

É fácil para qualquer um perceber a evolução de sua fotografia com o tempo. Também é fácil perceber que o mesmo motivo fotográfico rende fotografias de naturezas diferentes, dados diferentes estágios dessa evolução. Então não deveria ser difícil chegar à conclusão que todo tema é inesgotável; toda cidade é todo dia uma nova cidade; basta a disciplina e humildade de aceitar o fato de que sempre há mais possibilidades do que se é possível contemplar.

Purungo fora da tenda

Curitiba, Paraná, 2008

Em algumas fotos cedo à tentação de provocar o observador. Não por meio de confronto com valores ou convenções sociais nem por choque emotivo, mas por um jogo em que forneço um cenário incompleto, cuja mensagem parece estar cifrada por um código. Geralmente faço isso por meio de títulos, que complementam uma fotografia que carrega para mim um significado diferente do da maioria dos observadores, levando-os a indagar sobre uma foto aparentemente simples e objetiva. Mas não é o caso desta foto.

Para a interpretação final da foto, claro, é irrelevante o que eu quis dizer com ela. A provocação não visa direcionar o pensamento do observador, mas sim forçá-lo a acontecer, qualquer seja seu rumo. Ao fornecer um quebra-cabeça, dou a ilusão de que ele possa ser resolvido com um pouco de reflexão, o que não instiga a maioria das pessoas a tentarem, mas me contento com os poucos que o fazem. Contudo, muitas vezes as pistas são demasiado escassas para que se suceda, e a mensagem é demasiada particular para que seu efeito se compartilhe. O vislumbrar de uma solução que traga sentido à fotografia é portanto ilusório. Novamente, lembro que isso não importa: todas as mensagens — inclusive as que não foram colocadas na fotografia — são válidas. Código sem mensagem, denotação desprovida de conotação, classifique esse tipo de fotografia como quiser.

Terminado o preâmbulo, chegamos à foto acima, na qual vários aspectos diferentes contribuem para seu caráter surrealista. O colar, o brinco e adereços no cabelo indicam ser uma mulher. O cabelo raspado, por sua vez, contradiz essa hipótese, mas tende a ter menos força do que os outros sinais, já que na sociedade em que vivemos é mais fácil imaginar uma mulher de cabelo raspado do que um homem portando os itens mencionados.

O enquadramento é clássico para retratos: um busto, ênfase no rosto. Entretanto, a pessoa está de costas, o que por si só nega a ideia de retrato. Não ver o rosto de uma pessoa quando ela é claramente o elemento mais importante de uma imagem aumenta o desconcerto. As roupas são pouco usuais, e o guarda-chuva pendurado consegue ao mesmo tempo parecer um elemento descabido como acessório de vestuário e como item utilitário, dado o céu limpo visível ao fundo. Este, aliás, parece não concordar com o resto da foto, cuja iluminação destoa da esperada para uma foto feita ao ar livre com luz natural.

Na cabeça, o que parece ser um adesivo vermelho exibe texto: é de se esperar que atue como legenda, explicando ao menos parcialmente as contradições do resto da foto. Nele se lê somente “9º Purungo”, com tipografia pouco usual, com subtítulo “o espetáculo”, este porém ilegível na maioria dos tamanhos de visualização. O elemento textual acaba por desnortear ainda mais a leitura da imagem. Àqueles que procurarem, existe a informação de que o 9º purungo se trata de uma convenção de estudantes de design de Curitiba, o que também não explica a fotografia.

Os que buscam um título que elucide todo o mistério, daqueles que resolvem um complexo quebra-cabeça com simplicidade e elegância, são confrontados com: “Purungo fora da tenda”. Tenda não se vê na imagem. Tampouco a significância do fato do purungo estar fora da tenda, a ponto de gastar as escassas palavras do título para afirmá-lo. Aos que, ao verem a fotografia neste post, o leram com esperanças de que eu fosse explicar como ela foi feita, e com isso saciar sua curiosidade, termino o post lembrando que nada disso importa. E que a curiosidade só existe com intensidade por se tratar da linguagem fotográfica, com seu suposto “realismo” atribuído, e portanto com a pressuposta necessidade de fazer tanto sentido quanto a realidade. Aos que me acusarem de realizar uma fotografia de maneira randômica, desprovida de significado até para mim mesmo, repreendo-os por não prestarem atenção no que escrevi acima e reafirmo: não só há um significado, como ele é irrelevante.

Curva

Norwich, Connecticut, EUA, 2005

Em um dia de inverno no fim de Dezembro de 2005, saí de casa sozinho para tirar fotos e explorar os arredores. Na época usava a Sony V3, uma excelente máquina compacta avançada (categorizada na época como prosumer) que lembra bastante as Canon G, e não tinha começado a estudar fotografia ainda (o que estava prestes a acontecer).

Depois de descer o caminho que aparece na foto, que margeia um rio, olhei para trás. No mesmo instante a foto surgiu na minha cabeça, pronta, enquadrada e pré-visualizada, e ela simplesmente parecia certa (assim como a foto “luz mista” que inaugurou este blog). Essa foi a primeira vez que experimentei essa sensação, essa pequena epifania. Quando isso acontece — parafraseando alguém que infelizmente não lembro quem seja — não é você que faz a foto, é ela que te escolhe. Depois disso, há um laço emocional intrínseco, e embora seja possível racionalizar o julgamento, não há como evitar que ele seja solenemente ignorado.

Essa sensação que me fez começar meus estudos em fotografia. Não que não haja o mesmo prazer na construção de uma foto que é resultado de trabalho árduo e inúmeras iterações: o prazer difere somente em natureza, e também é gratificante. Cada um aprecia os múltiplos processos de modo diferente, o que acaba levando a pessoa para uma área específica da fotografia, por mais que ela seja capaz de apreciar o trabalho de outros que resulte de outras linhas (e aí entram o studium e o punctum de Barthes).