Ponte 2

Budapeste, Hungria, 2007

Um problema sempre presente em contra-luz é lens flare: a luz que chega à lente diretamente da fonte (ou seja, não é a refletida por um objeto e portanto não forma imagem) causa perda de contraste, tal qual um filme levemente velado (o princípio é o mesmo: luz que afeta por igual a superfície inteira do sensor ou filme). Além disso, ao refletir repetidamente nos elementos da lente, pode causar artefatos, como faixas, anéis, ou projeções da abertura do diafragma (os bem conhecidos polígonos quando ele não está aberto ao máximo). A quem não está familiarizado com o problema, sugiro ler este artigo.

Para que não haja flare, é preciso que haja algo bloqueando a luz que viria diretamente da fonte, seja isso um parassol (no caso dela estar fora do quadro) ou um obstáculo qualquer. No caso da foto acima, procurei uma altura na qual a própria ponte faria esse papel, bloqueando o sol que já estava baixo no horizonte. Como alternativas, era possível esperar o sol se pôr completamente ou fotografar o lado oposto da ponte, a favor da luz. Nenhuma delas, contudo, apresentaria algumas características que julguei interessantes na situação.

Antes de tudo, a contra-luz permitia a silhueta bem definida da ponte e das pessoas, já que ficavam contra o céu. A grade do parapeito se mostra com seu padrão bem nítido, apesar dele ultrapassar a fineza possível em resoluções menores (como é o caso acima) e se transformar em moiré em certos trechos.

A característica alta-luz especular na água, alinhada com o sol, não me agrada, principalmente por não conter textura já que naturalmente extrapolou o alcance dinâmico do sensor. Contudo, ela é essencial, pois é ela que ilumina a parte de baixo da ponte, o que não só permite visualizar detalhes adicionais como delimita a ponte como elemento, garantindo a ela uma boa separação contra o fundo na parte inferior. O efeito das altas-luzes especulares como luzes secundárias é negligenciado por muitos fotógrafos.

A perda de contraste no fundo pode parecer lens flare à primeira vista, mas se trata da iluminação de partículas suspensas no ar (como poeira, vapor d’água ou poluição), o que pode ser verificado pelo fato de ter sua intensidade variada de acordo com a distância (as árvores mais próximas apresentam menos perda). Isso também acontece de maneira mais acentuada em contra-luz, e nesse caso ajuda a dar profundidade ao fundo ao mesmo tempo em que o mantém bem distinto do primeiro plano.

Afonso pena

Curitiba, Paraná, 2009

Durante meu projeto de conclusão de curso da faculdade, tive que ir até o aeroporto para fazer pesquisa de campo. Sabendo que ia ter que tirar fotos no saguão do aeroporto, levei a 50mm para lidar com a luz escassa (dada sua abertura máxima de f/1.4). Fizemos uma pausa para organizar as anotações em uma mesa no andar superior, próximo ao deck de observação.

Enquanto estava sentado, vi a cena acima. Várias pessoas olhavam os aviões, bem distribuídas ao longo da janela e com alturas variadas, o que resultou em uma linha bem delineada passando por suas cabeças. Também se apresentavam em várias posturas diferentes, algumas mais estáticas e outras mais inquietas. O conjunto me agradou, e de onde estava a 50mm enquadrava praticamente do jeito que eu queria (apenas um pouco mais aberto do que o enquadramento final acima, após o corte).

Não cheguei nem a me levantar para fazer a foto, e agora, sinceramente, não lembro exatamente se foi porque não tinha convicção de que a foto valesse a pena, se não queria interromper o trabalho ou ainda se já havia planejado cortar a parte inferior de qualquer jeito, de modo que seria irrelevante o fato das mesas e cadeiras aparecerem grandes pela perspectiva daquele ponto de vista. O que me lembro bem é de ter pré-visualizado a foto, em pb, com a exposição voltada para o céu, tornando todo o resto em silhueta. Já comentei em vários outros posts (basta procurar na categoria “luz”) sobre essa questão de como lidar com a contra-luz, então não vou entrar em detalhes aqui.

Algumas fotos surgem de maneira inesperada, enquanto outras, para as quais criamos grandes expectativas, acabam em decepção. Isso não quer dizer, contudo, que o processo consciente de identificar possibilidades, resolvê-las enquanto composições e executá-las seja desnecessário. Mesmo que ele nunca desse um único resultado satisfatório na vida de um fotógrafo — e eu creio que isso não aconteceria com ninguém — é através dele que a habilidade perceptiva se aguça para que as tais fotos entregues pelo acaso sejam de fato identificadas e aproveitadas.

Órgão

Praga, Rep. Tcheca, 2008

Uma das maiores dificuldades para os iniciantes em fotografia é entender a luz. Condicionados a interpretar o que enxergam pelo que os objetos são, e não pela interação do que eles são com as luzes que incidem sobre eles, os aspirantes a fotógrafos se frustram frequentemente ao não conseguir fotografias agradáveis de coisas que julgam interessantes.

Depois de algum tempo, eles começam a perceber que certas condições de iluminação são mais favoráveis, mas sem entender o que acontece de verdade, se limitam a identificá-las e fazer sempre as mesmas fotos, aproveitando a mesma luz. Isso os leva a evitar situações mais complicadas nas quais eles não obtiveram bons resultados anteriormente, como situações de contra-luz.

Gosto de fotografar em contra-luz coisas com formas e texturas complexas, como arquitetura gótica ou o órgão acima. A luz frontal cria muitas sombras e volumes em algo que já os apresenta com fartura, o que acaba fazendo com que a foto seja definida por suas luzes e sombras e não pelo assunto e seus atributos. Obviamente, isso não é necessariamente ruim, e eu mesmo exploro isso ocasionalmente, mas é outra proposta e por isso não pode ser comparada diretamente.

Ao direcionar a fotometria e o white balance para as sombras, deixando o fundo estourar, se utiliza a suave luz ambiente (proveniente da reflexão interna nas paredes da igreja) para evidenciar linhas, desenhos e formas de maneira sutil e comedida. Na foto acima a parte inferior ainda é afetada por luzes diretas das janelas laterais, mas que por serem amplas e não estarem viradas diretamente para o sol enaltecem os arcos sem criar sombras duras abaixo deles.

Iluminados

Igreja de São Bento, Olinda, Pernambuco, 2008

Na foto acima, estávamos em 4 pessoas visitando a igreja. Eu e um outro amigo estávamos fotografando o altar, quando eu me virei por um momento e vi que minha amiga via fotos na câmera e as mostrava a seu namorado. Como já mencionei em outros posts, a adaptabilidade a diferentes níveis de luminosidade do olho é completamente diferente da de uma câmera, então a meus olhos a cena toda se mostrava razoavelmente uniforme, sem o grande contraste observado acima entre as sombras e os meios tons.

Percebendo que a contra-luz os transformaria em silhuetas se eu expusesse para as partes da igreja mais próximas da porta, decidi na hora fazer uma foto, antes que eles terminassem. A luz de fora garantiria uma boa separação, o que por sua vez conferiria aos dois um peso visual suficiente para que fossem o elemento principal da foto, mesmo sem ocupar grande porção do quadro. Desse modo, optei por uma distância focal pequena, de modo a ambientá-los e mostrar a cruz com seu arranjo decorativo acima, bem como mostrar as gradações luminosas em outras partes da igreja.

A silhueta também ocultava a câmera nas mãos de minha amiga, o que forçava a ênfase em suas posturas e na relação entre eles ao invés da ação em questão. Já me perguntaram se a foto foi posada. Ela não é, mas se fosse, nada mudaria. Simplesmente não importa. Mas isso é um assunto que requere mais linhas do que seria adequado para este blog.

Ale e a pipa

Colônia, Alemanha, 2008

Uma das decisões mais difíceis que fotógrafos de paisagem enfrentam é sobre levar ou não uma lente, um tripé, um flash ou qualquer equipamento para uma saída ou viagem. Quase sempre com informações limitadas sobre o local, nunca é possível saber com certeza se um equipamento seria crucial para uma foto importante. Por outro lado, levar sempre tudo costuma resultar em frustrações por carregar peso morto, e não é como carregar um agasalho quando faz calor ou um guarda-chuva quando não chove: são alguns quilos e volume suficiente para encher uma mochila. O peso extra acaba por atrapalhar a concentração, causar impaciência ou até impedir que se chegue a algum local específico (sem exagero: quem fotografa fazendo trekking sabe do que eu estou falando).

A foto acima foi feita em uma época em que eu estava convencido de que era preciso cortar o equipamento da lista sem dó, levando somente o que se tinha certeza de sua necessidade. Fui passear com amigos no jardim botânico de Colônia, e resolvi não levar a teleobjetiva, imaginando que não ia precisar dela. Ao chegar lá, havia um extenso gramado com várias pessoas, e imediatamente vi várias oportunidades ótimas para usar a lente que havia deixado em casa. Fiquei com um mau-humor extremo, irritado com as fotos perdidas. Como agravante ainda tive a infelicidade de pisar em merda de cachorro.

Irritado, me afastei dos meus amigos. Não tinha vontade de conversar, e eles com certeza estavam aproveitando o passeio. Foi quando uma pipa caiu aos pés deles. Percebi que a contra-luz, além de transformá-los em silhuetas bem definidas, fazia com que a pipa se apresentasse como a única forma colorida entre as silhuetas — por ser translúcida, a luz intensa que a trespassava conferia às cores alta saturação. Tirei algumas fotos, tentando conseguir um momento adequado enquanto as duas crianças donas da pipa se aproximavam. Esta foi a escolhida, pelas posturas e pela disposição da pipa: frontal, com a rabiola esvoaçante.

Aos que acham que este post tem uma moral da história enaltecendo o acaso ou algo parecido, vou deixar claro: eu ainda preferia que tivesse levado a teleobjetiva. Várias fotos com grande potencial que não pude registrar continuam na memória, e talvez as preferisse do que esta, mas não há como saber. De qualquer modo, o fato de um bom resultado ser obtido a partir de uma decisão ruim não a torna boa, tal como não há motivo para se arrepender de uma escolha prudente por mais que ela tenha consequências desastrosas. Também não quero dizer que é preciso sempre levar o máximo de equipamento, o que seria outro equívoco. O ideal é tentar determinar uma linha de corte razoável, que acomode a maioria das situações, e não se martirizar quando ela se mostrar inadequada: com informações limitadas, fotos perdidas ou peso morto ocorrerão inevitavelmente. Contudo, eles devem ser encarados com naturalidade e certo fatalismo, sem deixar que isto afete o julgamento do que levar em ocasiões futuras.

Vaso gradeado contido

Monastério de Santa Catalina, Arequipa, Peru, 2009

Uma coisa que digo constantemente para os meus alunos é que eles precisam entender como a câmera enxerga as coisas, pois isto — juntamente com a transformação do negativo digital em fotografia, e de sua reprodução em um meio — é que forma a linguagem fotográfica, sendo ela completamente diferente da usada pela visão humana (embora seja ironicamente subordinada a ela). Com a possibilidade de visualização instantânea da fotografia digital, todo o processo de imaginar como uma situação observada ao vivo será traduzida para a linguagem fotográfica (chamado por Ansel Adams de pré-visualização, e para o qual ele criou o famoso Sistema de Zonas) foi relegado a um segundo plano, considerado menos importante do que coisas como a operação da câmera ou o pós-processamento.

A noção de que não é mais preciso conseguir prever como será a foto final pelo fato de ser possível vê-la logo depois do click é perigosa por vários motivos, dos quais somente um é o assunto deste post. Existem muitas situações que podem ser exploradas exatamente em função da diferença entre a percepção luminosa por parte da câmera e por parte dos olhos. Ao ignorar (ou não se preocupar com) essas diferenças, as fotografias possíveis nem são consideradas pelo fotógrafo, que está à procura de coisas que apeteçam seus olhos (seja isso segundo uma estética formalista, documentária ou qualquer outra).

A foto acima apresenta um bom exemplo. Eu me encontrava dentro de um aposento, que possuía uma janela gradeada com um vaso pendurado do lado de fora. Não havia fonte de luz dentro, mas a luz que entrava pela janela e pela porta eram mais do que suficientes para enxergar o interior sem qualquer problema. Do outro lado da janela havia uma parede azul, o que formava um corredor, que por sua vez era coberto. A alguns metros à esquerda o corredor dava lugar a um pátio, sendo este descoberto. Portanto, a única fonte de luz na cena é a luz natural, que entra por meio do pátio e chega ao corredor pela esquerda, iluminando a parede e o vaso de maneira direta, e o interior da sala onde eu estava de maneira indireta (por reflexão).

Parece óbvio dizer que o vaso e a parede vão apresentar níveis de luminosidade muito acima dos percebidos no interior do aposento, mas não é isso que os olhos enxergam: a adaptabilidade maior dos olhos (incluindo aí o fato de eles perceberem a luz de maneira não-linear) e a constante contração e dilatação das pupilas faz com que seja possível enxergar a cena inteira com um nível de luminosidade parecido. Ou seja, aos olhos, não há silhueta, quadro dentro de quadro ou a iluminação lateral aguda sobre o vaso presentes na foto acima. Sem pré-visualização ela não existiria, já que foram esses fatores que geraram o meu interesse. Pré-visualização não serve só para definir os tons da foto de acordo com as intenções do fotógrafo; ela já é importante desde o primeiro filtro, a primeira seleção do motivo ou referente, mapeando as fotografias possíveis para então desenvolvê-las.