Água verde

Barcelona, Espanha, 2008

Muito já se falou, tanto neste blog quanto em outros lugares, sobre a hora de ouro (ou dourada, ou da luz mágica): a primeira ou a última hora em que o sol está visível, quando ele projeta uma luz quase lateral ou frontal, com sombras longas e bastante contraste (muitos também o apreciam pela sua temperatura de cor característica). Contudo, pouco se fala sobre suas virtudes também quando o céu está encoberto, mitigando todos as características citadas exceto a primeira: o ângulo da luz.

O ângulo é mais importante do que possa parecer, mesmo quando a fonte de luz está difusa (fato óbvio para qualquer um que já trabalhou em estúdio, mas alguns se esquecem disso ao lidar com luz natural). Com o menor contraste, fica mais difícil perceber a direção da luz, mas ela ainda é sua característica mais importante. Eu aprecio muito a luz da hora dourada em dias nublados, pois não só ela é suave como também não lança sombras embaixo das coisas, mas sim atrás delas, revelando formas de maneira sutil, porém altamente eficiente (a exceção, é claro, é em contra-luz). Desse modo, quaisquer formas côncavas na vertical (como pescoço e embaixo dos olhos no caso das pessoas, ou objetos mais largos no topo do que na base) são delineadas sem interferências.

Na foto acima, é a luz lateral que permite que a parte inferior do carrinho ainda fique um pouco iluminada, e a suavidade do céu encoberto que permite que as sombras embaixo dele sejam suaves, sem nenhum ponto em sombra absoluta: só há penumbra. Desse modo, os pés e pernas da mulher também ficam visíveis, e as formas de sua jaqueta e do carrinho de bebê ficam suavemente definidas pelas variações tonais. Também é a luz lateral que torna a textura das três camadas de rocha à esquerda tão definida, pois seus entrecortes se dão na horizontal. Por último, os balaústres não ficam tomados por sombras do corrimão sobre eles, tendo sua forma exibida sem interferência.

Se o dia não estivesse nublado, teria feito a foto do mesmo jeito, e talvez gostasse dela. Mas arrisco dizer que a luz chamaria mais atenção para si do que para o motivo, e ela não teria o comedimento que esta apresenta e que nela me agrada. Nesse motivo específico, sombras longas e dramáticas e contraste intenso não colaborariam com o universo de mensagens possíveis que eu tencionava transmitir.

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Pegando água

Margem do Reno, Colônia, Alemanha, 2007

Entre os fotógrafos de paisagem, convencionou-se chamar a luz obtida logo após o nascer do sol e antes dele se pôr como “luz mágica”, e esse curto período de tempo (geralmente fixado arbitrariamente em uma hora) como “hora dourada” ou mágica. Isso porque nesse horário a luz do sol apresenta uma qualidade singular, temperatura de cor baixa e posição quase lateral, lançando longas sombras, realçando texturas e relevos (o que é de extrema utilidade em paisagens).

O fato do sol nesse tipo de ocasião estar muito baixo traz um problema quando se tem algo alto em volta (como prédios ou colinas): é comum eles lançarem sombras sobre o motivo, o que faz com que a luz, ao invés de mágica, seja tal qual a de um início de noite. Por outro lado, esse mesmo fenômeno permite uma situação fortuita que já encontrei muitas vezes, na qual se formam pequenos bolsões ou faixas iluminadas (entre as sombras de dois prédios, por exemplo). Isso define uma luz interessante para retratos, pois garante uma boa separação em relação ao fundo (já que ele vai estar em um tom muito mais escuro). Os obstáculos funcionam nesse caso como gobos, restringindo a luz a uma área específica.

Essa foto ilustra bem essa conjunção de fatores: ela foi tirada às margens do Reno, em Colônia, com uma tele. À medida que o sol se pôs, percebi que a luz mágica localizada estava se formando, e fixei a atenção em um casal com filho pequeno que se encontrava exatamente em um desses bolsões de luz. Esperava por algum momento “pai e filho” ou “mãe e filho”, um de meus temas recorrentes, mas não houve nada de aproveitável. Depois de alguns minutos o garoto, querendo água para brincar na areia, foi até a margem do rio para pegá-la.

Achei que o contraste de uma situação razoavelmente comum em praias com as roupas inusitadas para ela criariam uma cena interessante. A luz contribuiu, dando uma certa dramaticidade e reforçando o caráter de situação atípica já desvelada, além de garantir a já mencionada separação, nesse caso ainda mais intensa em função dos cabelos loiros. Há quem argumente que fotos de crianças deveriam focar em suas expressões, e não há nada de errado com isso, mas não creio que é uma regra aplicável nesse caso: a foto não é da criança, é da combinação de seu ato com suas roupas. O rosto em evidência só roubaria a atenção do real motivo da foto.