Vermelho e laranja

Curitiba, 2012

Nos primórdios da fotografia, no século XIX, logo depois de ter exaltados seus atributos como meio de documentar o mundo visual, surgiu o pictorialismo. Esse movimento tentava conferir à fotografia o status de arte ao emular a pintura, já que era a modalidade de arte visual mais bem quista historicamente até então. Vários pintores criticaram a suposta pretensão da fotografia (Baudelaire sendo o exemplo mais citado), com seus argumentos geralmente orbitando em torno da separação entre Belo e Verdadeiro. A teoria dos sacrifícios, aceita como fundamental para a composição na época, dizia que a arte deve escolher o que convém e omitir o que não convém, o que a fotografia não seria capaz de fazer, pois registrava sempre a profusão de detalhes do mundo real compulsivamente. A totalidade da tela seria oposta ao fragmento do quadro fotográfico, e a fotografia seria incapaz de estabelecer uma hierarquia entre as coisas registradas, os detalhes reproduzidos e os limites do quadro.

Eventualmente a fotografia se desenvolveu como linguagem, os fotógrafos começaram a entender suas especificidades e assim ela respondeu com desenvoltura os argumentos citados — o que não encerrou o debate, apenas mudou as questões e provocou novos argumentos. Para este post, esse pequeno resumo é o que basta como introdução. Quem se interessar e quiser ler mais sobre isso, recomendo os livros The history of photography (de Beaumont Newhall) e História da fotografia (de M. L. Sougez) para uma narrativa histórica, e o livro A fotografia: entre documento e arte contemporânea (de André Rouillé) para uma análise crítica do processo.

Chegando à foto acima: a fotografia abstracionista tem como pressuposto justamente a ocorrência das características citadas como impossíveis a ela. O único argumento que permanece é o da totalidade em oposição ao fragmento: a composição na fotografia se assemelha mais à escultura, que parte do todo (seja ele um bloco de mármore ou todo o mundo visível) e chega ao resultado após desbastar e excluir. Continua sendo possível, portanto, mostrar somente o que se deseja sem recair sobre a profusão de detalhes. Outros fatores inerentes à linguagem fotográfica, entretanto, são inevitáveis, o que sempre vai diferenciar uma fotografia abstracionista de uma pintura abstrata, mas isso foge ao tópico.

Fiz a foto acima em uma festa, que registrava como um favor a um amigo. A luz vermelha, utilizada para criar atmosfera, estava colocada em uma prateleira onde ficavam as taças. Apesar de perceber o potencial da situação, o processo de compor me desafiava. Percebi que escolher um ponto de vista e um enquadramento (ferramentas básicas numa composição sem intervenção) seriam tarefas nas quais poderia gastar horas (tempo que não havia, já que eu não estava ali para isso). Não fiquei muito satisfeito com os resultados, e foi somente após novo corte, feito com calma na hora de revelar o arquivo RAW, que encontrei a foto acima.

E nela, restou somente o que eu queria.

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