Figura frontal

São Luiz do Purunã, Paraná, 2011

Ansel Adams denominava suas abstrações de extrações. Segundo ele, esse nome fazia mais jus ao processo fotográfico, uma vez que abstração dá a ideia de intervenção direta para tornar abstrato, enquanto que extração se baseia somente no uso de um enquadramento ou outras características da linguagem fotográfica para se obter um resultado que não denote de imediato o seu referente. Eu, particularmente, prefiro abstração mesmo, tanto pela maior facilidade de compreensão por parte do receptor (termo difundido, dispensa explicações adicionais) como por reforçar a ênfase no desenho pelo desenho, na estética formalista.

De qualquer modo, o raciocínio de Adams serve para lembrar-nos que as abstrações fotográficas podem ser feitas a partir de qualquer referente, bastando somente que enxerguemos as possibilidades não pela experiência da visão ou da percepção espacial, mas sim pela tradução para a linguagem fotográfica, com suas limitações e particularidades.

A foto acima foi feita em um lago qualquer, e não é de modo alguma original: aproveitar o reflexo da água para se obter simetria é algo que já era explorado na pintura, muito antes da fotografia sequer surgir. A abordagem em questão é na verdade a diferença entre a simetria vertical (ou seja, com eixo de simetria na horizontal) e a horizontal (como a da foto acima).

Uma foto razoavelmente objetiva e figurativa, de montanha refletida na água, se transforma quando a fotografia é rotacionada. Isso pode ser atribuído à simples confusão mental causada pela discrepância entre o modo que vemos a montanha com os olhos e o modo como a vemos na fotografia, mas por si só não explica tudo: esta fotografia tem caráter de vista frontal, ou seja, a vemos como se mirássemos a face de um objeto que nos encara de volta, enquanto que se revertermos a rotação a sensação desaparece.

Isso foi muito bem explorado por Arnheim em seu livro “Art and visual perception“, o qual recomendo (e devo resenhar no futuro em meu outro blog), e se deve ao fato de que temos uma relação diferente com a vertical e a horizontal. A simetria vertical nunca nos parece tão equilibrada quanto a horizontal, devido à nossa percepção inerente de chão e gravidade. Cima e baixo têm uma relação de conflito inexistente entre esquerda e direita. A simetria na natureza também se dá predominantemente na horizontal e vista da face frontal, o que reforça a impressão causada pela fotografia. Quanto a outras atribuições semânticas das formas ali dispostas, as interpretações são múltiplas, mas uma delas tende a predominar pela importância dada por nossa percepção ao fator humano (e feminino).

Ao leitor atento: a introdução sobre Ansel Adams serviu justamente para deixar implícito a usual descrição do Antes do click desta fotografia. Por si só, contudo, não a completa: foi preciso a reflexão possibilitada pela questão da simetria para que eu decidisse fazê-la; caso contrário seria apenas mais uma foto de reflexo na água.

“Lua”

Colônia, Alemanha, 2007

Sempre me perguntam o que é essa foto, algumas vezes já especulando se ela seria uma montagem de duas diferentes ou uma dupla exposição (o que na fotografia digital se qualificaria também como uma montagem). As linhas na parte superior parecem não fazer sentido figurativamente, e o fato de estarem atrás da forma circular branca, que ainda por cima parece iluminar um plano acima dela, terminam por desconcertar o olhar que busque suas origens. Antes de explicar o que são, irei descrever o local e o evento, o que dá a oportunidade para um leitor observador entender a foto sozinho antes de chegar ao fim deste post.

Em Colônia existe um prédio bem alto chamado Köln Triangle, logo atrás do mirante de onde fiz a foto “clichê”, onde é possível subir ao terraço para apreciar a vista. Nossa intenção era subir perto do fim da tarde, apreciar o pôr-do-sol e um pouco da noite, com a catedral e a cidade iluminadas. Depois de tirar algumas fotos enquanto o céu ainda estava alaranjado, precisávamos esperar pelo menos uma hora para a noite se estabelecer de fato. Era Dezembro, então as temperaturas estavam muito baixas, de modo que decidimos esperar no conforto do aquecimento de um espaço fechado, separado do resto do terraço por painéis e uma porta feitos de vidro.

As colunas que aparecem na parte inferior são parte da barreira do terraço, tal qual enormes janelas de vidro (devem ter pouco mais de 2 metros de altura). As linhas na parte superior formam parte da cobertura do terraço, que de maneira pouco usual se assemelha a um guarda-chuva de vidro: a linha curva é a sua borda externa circular, e a outra é um dos suportes que a ligam ao eixo central. Esta foto mostra tudo, inclusive a porta atrás da qual eu estava.

A foto faz mais sentido quando se pensa que só não há vidro na faixa estreita de céu ao meio, que separa a cobertura acima da borda do terraço abaixo. Na verdade essa parte também está sendo vista através de vidro (o do painel logo à minha frente, cujas bordas ficaram fora da foto e desse modo afeta o quadro inteiro). O que explica a “lua”: é apenas o reflexo de uma luminária de parede, localizada atrás de mim. A luz externa ainda era forte o suficiente para subjugar quaisquer outros reflexos vindos de dentro (juntamente com o uso do polarizador na intensidade máxima).

Do momento em que vi o reflexo da luminária e decidi fazer alguma coisa com ele até esta foto, foram 5 tentativas e alguns minutos, definindo a posição dos elementos e a proporção de cada área pela altura da câmera (partindo do risco atravessando a esfera e definindo o resto a partir daí).