Workshop – 2

Curitiba, 2011

Modelo: Julia Alcântara
Produção de make e hair: Leticia Kosinski
Figurino: DI LUSSO

Fiz a foto acima como participante de um workshop de fotografia de moda e retratos, ministrado por Carolina Pessôa durante o Movimento fotográfico, circuito de workshops que aconteceu no ano passado e no qual ministrei o mini-curso de fotografia casual. Apesar de não ter muito interesse na área (tanto profissional quanto pessoal), resolvi fazê-lo pela curiosidade de ver como são os métodos aplicados e ter a percepção in loco dessa diferente abordagem, desse modo de pensar diferente usando apesar disso ferramentas similares.

Creio que todos deveriam periodicamente experimentar esse tipo de exercício, por vários motivos:

  • Sair da zona de conforto é sempre bom para ampliar seus horizontes. Pensar em posicionamento de câmera para paisagens ou arquitetura, por exemplo, acaba se restringindo a um repertório consolidado após um tempo, e é necessário um esforço consciente para evitar a acomodação. Em retratos o posicionamento tem critérios e objetivos diferentes, o que força nova atividade intelectual para descobrir novas possibilidades. Algumas delas (ou seus aspectos isolados) podem ser transpostos para a área de atuação original.
  • As curvas de aprendizado de qualquer atividade se tornam menos drásticas com o passar do tempo. Ou seja, para quem se especializou numa área e tem milhares de horas já dedicadas a ela, duas horas a mais fazem uma diferença insignificante. Isso leva, em alguns casos, à falta de motivação, pois não há sensação de progresso. Duas horas em uma área completamente nova, ao contrário, trazem inúmeras novidades. Os efeitos psicológicos do aprendizado são subestimados pela maioria das pessoas, e são transpostos para todas as outras atividades (um bom exemplo são as pessoas que começam um novo hobby e têm melhor rendimento no trabalho, que já não parece tão monótono).
  • Ideias novas precisam de associações novas. Para que estas ocorram, é preciso um grande repertório e uma vasta variedade de estímulos. Ao fotografar algo diferente, se tem a mistura de áreas já conhecidas (câmera, técnica, linguagem visual, bidimensionalização) com outras completamente novas (modelagem de luz no rosto, direção de modelo, expressão corporal), o que é terreno fértil para o pensamento lateral (adaptação de soluções de uma situação para outra através de associações inusitadas entre coisas aparentemente desconexas).
  • Um pequeno aprofundamento em uma área pode evidenciar aspectos novos que despertem o interesse. Dificilmente isso causa uma mudança drástica de gosto, mas é na capacidade de refinar a atitude em relação a algo que residem os julgamentos mais elaborados, dissolvendo estereótipos e permitindo uma apreciação maior, bem como tolerâncias maiores em relação ao que é diferente.

Em cursos de graduação esses exercícios acontecem com frequência na maioria das áreas, dado o currículo obrigatório a ser cumprido. Uma desvantagem do aprendizado autônomo é que, justamente por poder customizá-lo, é comum cada um se restringir à sua área de maior interesse. Não que isso mude minha opinião sobre o ensino de modo geral, mas é preciso que os autodidatas fiquem atentos e se forcem a exercitar além do que eles julgam ser “sua fotografia”.

Não gosto de turistas

Ilha de Uros no Lago Titicaca, Peru, 2009

Em retratos, um dos erros mais comuns cometidos por iniciantes (eu arriscaria até dizer que ele é o mais comum, à frente de problemas de enquadramento) é não refletir sobre o fundo. Um fundo pode prejudicar um retrato na medida em que diminui a objetividade, por ser poluído e chamar a atenção do observador ou introduzir desenhos indesejados, ou pode contribuir, contextualizando, adicionando cor ou contraste, sendo visualmente agradável.

Para retratistas, é sempre importante pensar na separação: a distinção visual entre o retratado e o fundo. Com baixo contraste entre eles, por mais que a foto seja ainda obviamente identificável, ela perde força, pois o olhar não se concentra no retratado, e em alguns casos não tem ideia clara sobre onde um começa e o outro termina. Há uma certa carência de material bem editado sobre isso na Internet, então quem tiver interesse em ler mais sobre esse assunto, eu recomendo “Master lighting guide for portrait photographers”, de Christopher Grey.

A foto acima apresentava um problema com o fundo: além de poluído, havia dois elementos de cores saturadas, que distraíam o olhar já no primeiro instante de observação da foto. Mudar a posição da câmera remediaria isso — um passo à esquerda poderia fazer tanto a sacola quanto o painel, visível no canto superior esquerdo, ficarem fora do quadro — mas eu não podia fazê-lo, pois estávamos sentados, assistindo a uma apresentação sobre o povo de Uros.

De qualquer maneira, a expressão da menina — a única de um grupo de 5 ou 6 crianças que não parecia gostar nada da nossa presença — me fez insistir na tentativa de retratá-la. Esperei pelo momento certo, em que ela estivesse com o nuance expressivo e postura que julguei mais adequados, e cliquei. Achava que a foto seria inaproveitável, mas na pós-produção me dei ao trabalho de maximizar o contraste entre a retratada e o fundo durante a conversão para preto e branco, além de minimizá-lo entre o fundo e os dois elementos detrativos, o que só foi possível depois de mais edições locais com máscaras.

Nesse ponto, é comum crer que o principal fator para a separação, nesse e em outros casos, é o bokeh (a intensidade e natureza do desfoque), mas o contraste luminoso ainda desempenha o papel principal. Bokeh nem pós-processamento algum podem consertar um fundo problemático. Eles só atenuam o problema.