Mudança no blog

Hoje adicionei uma nova página ao blog, que pode ser acessada na barra ali em cima: “Pergunte ao autor”. Nela, vocês podem fazer perguntas ou sugerir posts. Fiz isso porque percebi que um dos maiores motivos que me levaram a perder a motivação de escrever aqui é que o processo estava unilateral demais. Eu escrevia sobre um assunto sem ter a mínima ideia se ele interessava à maioria dos leitores, e mesmo depois de publicado eu continuava sem ter uma boa percepção sobre a utilidade ou o impacto de cada post.

Espero que isso possa solucionar o problema, e que venha a ser a fonte principal de pautas para os posts. Eu ainda espero escrever ocasionalmente sem ser em resposta a uma pergunta, mas isso teria que esperar até eu voltar a fotografar, o que não tenho feito nos últimos meses. Então peço a todos que em algum momento gostaram de algum post que pensem em perguntas ou pedidos, de modo que eu consiga reativar este blog e transformá-lo em algo mais participativo.

Clique aqui para ir para a página de perguntas e pedidos.

Vermelho e laranja

Curitiba, 2012

Nos primórdios da fotografia, no século XIX, logo depois de ter exaltados seus atributos como meio de documentar o mundo visual, surgiu o pictorialismo. Esse movimento tentava conferir à fotografia o status de arte ao emular a pintura, já que era a modalidade de arte visual mais bem quista historicamente até então. Vários pintores criticaram a suposta pretensão da fotografia (Baudelaire sendo o exemplo mais citado), com seus argumentos geralmente orbitando em torno da separação entre Belo e Verdadeiro. A teoria dos sacrifícios, aceita como fundamental para a composição na época, dizia que a arte deve escolher o que convém e omitir o que não convém, o que a fotografia não seria capaz de fazer, pois registrava sempre a profusão de detalhes do mundo real compulsivamente. A totalidade da tela seria oposta ao fragmento do quadro fotográfico, e a fotografia seria incapaz de estabelecer uma hierarquia entre as coisas registradas, os detalhes reproduzidos e os limites do quadro.

Eventualmente a fotografia se desenvolveu como linguagem, os fotógrafos começaram a entender suas especificidades e assim ela respondeu com desenvoltura os argumentos citados — o que não encerrou o debate, apenas mudou as questões e provocou novos argumentos. Para este post, esse pequeno resumo é o que basta como introdução. Quem se interessar e quiser ler mais sobre isso, recomendo os livros The history of photography (de Beaumont Newhall) e História da fotografia (de M. L. Sougez) para uma narrativa histórica, e o livro A fotografia: entre documento e arte contemporânea (de André Rouillé) para uma análise crítica do processo.

Chegando à foto acima: a fotografia abstracionista tem como pressuposto justamente a ocorrência das características citadas como impossíveis a ela. O único argumento que permanece é o da totalidade em oposição ao fragmento: a composição na fotografia se assemelha mais à escultura, que parte do todo (seja ele um bloco de mármore ou todo o mundo visível) e chega ao resultado após desbastar e excluir. Continua sendo possível, portanto, mostrar somente o que se deseja sem recair sobre a profusão de detalhes. Outros fatores inerentes à linguagem fotográfica, entretanto, são inevitáveis, o que sempre vai diferenciar uma fotografia abstracionista de uma pintura abstrata, mas isso foge ao tópico.

Fiz a foto acima em uma festa, que registrava como um favor a um amigo. A luz vermelha, utilizada para criar atmosfera, estava colocada em uma prateleira onde ficavam as taças. Apesar de perceber o potencial da situação, o processo de compor me desafiava. Percebi que escolher um ponto de vista e um enquadramento (ferramentas básicas numa composição sem intervenção) seriam tarefas nas quais poderia gastar horas (tempo que não havia, já que eu não estava ali para isso). Não fiquei muito satisfeito com os resultados, e foi somente após novo corte, feito com calma na hora de revelar o arquivo RAW, que encontrei a foto acima.

E nela, restou somente o que eu queria.

Workshop – 2

Curitiba, 2011

Modelo: Julia Alcântara
Produção de make e hair: Leticia Kosinski
Figurino: DI LUSSO

Fiz a foto acima como participante de um workshop de fotografia de moda e retratos, ministrado por Carolina Pessôa durante o Movimento fotográfico, circuito de workshops que aconteceu no ano passado e no qual ministrei o mini-curso de fotografia casual. Apesar de não ter muito interesse na área (tanto profissional quanto pessoal), resolvi fazê-lo pela curiosidade de ver como são os métodos aplicados e ter a percepção in loco dessa diferente abordagem, desse modo de pensar diferente usando apesar disso ferramentas similares.

Creio que todos deveriam periodicamente experimentar esse tipo de exercício, por vários motivos:

  • Sair da zona de conforto é sempre bom para ampliar seus horizontes. Pensar em posicionamento de câmera para paisagens ou arquitetura, por exemplo, acaba se restringindo a um repertório consolidado após um tempo, e é necessário um esforço consciente para evitar a acomodação. Em retratos o posicionamento tem critérios e objetivos diferentes, o que força nova atividade intelectual para descobrir novas possibilidades. Algumas delas (ou seus aspectos isolados) podem ser transpostos para a área de atuação original.
  • As curvas de aprendizado de qualquer atividade se tornam menos drásticas com o passar do tempo. Ou seja, para quem se especializou numa área e tem milhares de horas já dedicadas a ela, duas horas a mais fazem uma diferença insignificante. Isso leva, em alguns casos, à falta de motivação, pois não há sensação de progresso. Duas horas em uma área completamente nova, ao contrário, trazem inúmeras novidades. Os efeitos psicológicos do aprendizado são subestimados pela maioria das pessoas, e são transpostos para todas as outras atividades (um bom exemplo são as pessoas que começam um novo hobby e têm melhor rendimento no trabalho, que já não parece tão monótono).
  • Ideias novas precisam de associações novas. Para que estas ocorram, é preciso um grande repertório e uma vasta variedade de estímulos. Ao fotografar algo diferente, se tem a mistura de áreas já conhecidas (câmera, técnica, linguagem visual, bidimensionalização) com outras completamente novas (modelagem de luz no rosto, direção de modelo, expressão corporal), o que é terreno fértil para o pensamento lateral (adaptação de soluções de uma situação para outra através de associações inusitadas entre coisas aparentemente desconexas).
  • Um pequeno aprofundamento em uma área pode evidenciar aspectos novos que despertem o interesse. Dificilmente isso causa uma mudança drástica de gosto, mas é na capacidade de refinar a atitude em relação a algo que residem os julgamentos mais elaborados, dissolvendo estereótipos e permitindo uma apreciação maior, bem como tolerâncias maiores em relação ao que é diferente.

Em cursos de graduação esses exercícios acontecem com frequência na maioria das áreas, dado o currículo obrigatório a ser cumprido. Uma desvantagem do aprendizado autônomo é que, justamente por poder customizá-lo, é comum cada um se restringir à sua área de maior interesse. Não que isso mude minha opinião sobre o ensino de modo geral, mas é preciso que os autodidatas fiquem atentos e se forcem a exercitar além do que eles julgam ser “sua fotografia”.

Ponte 2

Budapeste, Hungria, 2007

Um problema sempre presente em contra-luz é lens flare: a luz que chega à lente diretamente da fonte (ou seja, não é a refletida por um objeto e portanto não forma imagem) causa perda de contraste, tal qual um filme levemente velado (o princípio é o mesmo: luz que afeta por igual a superfície inteira do sensor ou filme). Além disso, ao refletir repetidamente nos elementos da lente, pode causar artefatos, como faixas, anéis, ou projeções da abertura do diafragma (os bem conhecidos polígonos quando ele não está aberto ao máximo). A quem não está familiarizado com o problema, sugiro ler este artigo.

Para que não haja flare, é preciso que haja algo bloqueando a luz que viria diretamente da fonte, seja isso um parassol (no caso dela estar fora do quadro) ou um obstáculo qualquer. No caso da foto acima, procurei uma altura na qual a própria ponte faria esse papel, bloqueando o sol que já estava baixo no horizonte. Como alternativas, era possível esperar o sol se pôr completamente ou fotografar o lado oposto da ponte, a favor da luz. Nenhuma delas, contudo, apresentaria algumas características que julguei interessantes na situação.

Antes de tudo, a contra-luz permitia a silhueta bem definida da ponte e das pessoas, já que ficavam contra o céu. A grade do parapeito se mostra com seu padrão bem nítido, apesar dele ultrapassar a fineza possível em resoluções menores (como é o caso acima) e se transformar em moiré em certos trechos.

A característica alta-luz especular na água, alinhada com o sol, não me agrada, principalmente por não conter textura já que naturalmente extrapolou o alcance dinâmico do sensor. Contudo, ela é essencial, pois é ela que ilumina a parte de baixo da ponte, o que não só permite visualizar detalhes adicionais como delimita a ponte como elemento, garantindo a ela uma boa separação contra o fundo na parte inferior. O efeito das altas-luzes especulares como luzes secundárias é negligenciado por muitos fotógrafos.

A perda de contraste no fundo pode parecer lens flare à primeira vista, mas se trata da iluminação de partículas suspensas no ar (como poeira, vapor d’água ou poluição), o que pode ser verificado pelo fato de ter sua intensidade variada de acordo com a distância (as árvores mais próximas apresentam menos perda). Isso também acontece de maneira mais acentuada em contra-luz, e nesse caso ajuda a dar profundidade ao fundo ao mesmo tempo em que o mantém bem distinto do primeiro plano.

Somando tempos de exposição por média de layers

Este post é um pouco diferente, visto que trata de uma foto que fiz somente para mostrar uma técnica. Apesar de ele parecer mais um tutorial que um relato do “antes do click”, acho que se enquadra no blog. Não pretendo, contudo, fazer muitos posts desse tipo.

Há algum tempo atrás, havia imaginado como a técnica de tirar a média de várias exposições (que é explicada em detalhes neste tutorial do Cambridge in Colour) poderia ser usada para se somar o motion blur de todas elas. Explicando de maneira resumida: a técnica começa com várias fotos feitas com tripé da mesma cena. Em seguida, na pós-produção, elas são sobrepostas, cada uma em uma layer, de modo que se obtenha várias layers idênticas. A única diferença seria o ruído, que se apresentaria de modo diferente em cada uma. Ao se tirar a média de todas as layers (ou seja, misturá-las na mesma proporção), se obteria uma imagem com bem menos ruído, já que há mais amostras.

O uso que eu imaginei seria o seguinte: com várias exposições de algo em movimento, a média delas nada mais seria do que a soma de todos os seus tempos de exposição. E por que isso seria melhor do que fazer uma única longa exposição? Porque em várias situações isso não é possível ou desejável. Por exemplo: para fotografar cachoeiras durante o dia, o tempo de exposição longo requerido para deixar a água suave faria resultaria em uma superexposição severa, mesmo em uma abertura baixa. Isso é geralmente resolvido com filtros ND (densidade neutra), ao custo de uma pequena queda na qualidade de imagem (mesmo com um bom filtro). Também são utilizadas aberturas muito pequenas, que implicam em difração, e portanto perda de nitidez.

Com a média das layers, pode-se trabalhar sem filtro ND, na abertura desejada (por exemplo o sweet spot da lente, ou uma grande abertura caso se queira uma profundidade de campo pequena) e com mais flexibilidade para escolher exatamente quanto tempo de exposição, pois basta tirar mais fotos (e depois ainda é possível mudar de ideia e não usar todas). Ela também pode ser combinada com as possibilidades já existentes para se conseguir tempos de exposição ainda maiores.

Ia esperar uma boa oportunidade para testar a técnica, mas aconteceu de um amigo meu ter justamente os problemas citados ao fazer uma foto, então resolvi fazer a foto abaixo (e também escrever este post) para explicar melhor.

esq.: sem média; dir.: com média

A foto da esquerda é uma das originais, em 1/13, que foi a velocidade que garantia uma boa exposição em f/8 (sweet spot da minha lente em APS-C). Fiz catorze fotos. Ao tirar a média delas, obtive a da direita, que é, em termos de registro de movimento, idêntica ao que seria uma única exposição de pouco mais de um segundo. Sem filtro ND, sem precisar usar uma abertura pequena (seria preciso quase 4 stops, o que resultaria em ~f/32).

Para fazer a média no Photoshop também não é complicado: no menu File -> scripts -> load files into stack, você escolhe os arquivos e ele já empilha todos em layers em um único arquivo, inclusive com a opção de alinhar automaticamente (já que mesmo com tripé muitas vezes há um desalinhamento sutil). Depois disso, basta alterar as opacidades de cada layer para que elas se misturem na mesma proporção. A última layer (embaixo de todas) deve ter 100% de opacidade, e as outras devem ter 100/número de layers abaixo dela, mais ela mesma. Ou seja, a progressão ficaria, de baixo para cima: 100 – 50 – 33 – 25 – 12 – (…).

Existe ainda a vantagem de, com o uso de máscaras, ser possível usar graus variados de motion blur para cada parte da imagem. Se eu não quisesse que o movimento da vegetação aparecesse no resultado final, basta mascarar a região em todas as fotos com exceção de uma. Ou então é também possível combinar isso com exposições diferentes, para por exemplo preservar o céu em uma foto contra-luz em que ele estaria estourado (como no caso da foto do meu amigo).

 

P.S.: não era minha pretensão reivindicar a autoria da técnica, até porque acho pouco provável que ninguém tenha pensado nela antes, mas nunca a vi em lugar nenhum.

Retrospectiva 2011

Comecei este blog em fevereiro. Desde então, escrevi 42 vezes aqui. A enorme maioria dos leitores o descobriu nos últimos meses, e portanto imagino que tenha lido somente uma parcela do que já foi publicado, mas às vezes não tem disposição para vasculhar os arquivos. Vou listar aqui então os que foram, na minha opinião, os dez melhores posts desse primeiro ano (independentemente da categoria e sem ordem específica). Caso algum leitor mais antigo discorde da minha seleção por favor comente, pois tenho curiosidade de ver as listas de outras pessoas.

Azul

Purungo fora da tenda

Altstadt

Céu centrado

Figura frontal

Solidão

Abcdefghij

Ale e a pipa

Descendo

Fim de tarde em Barcelona

Água verde

Barcelona, Espanha, 2008

Muito já se falou, tanto neste blog quanto em outros lugares, sobre a hora de ouro (ou dourada, ou da luz mágica): a primeira ou a última hora em que o sol está visível, quando ele projeta uma luz quase lateral ou frontal, com sombras longas e bastante contraste (muitos também o apreciam pela sua temperatura de cor característica). Contudo, pouco se fala sobre suas virtudes também quando o céu está encoberto, mitigando todos as características citadas exceto a primeira: o ângulo da luz.

O ângulo é mais importante do que possa parecer, mesmo quando a fonte de luz está difusa (fato óbvio para qualquer um que já trabalhou em estúdio, mas alguns se esquecem disso ao lidar com luz natural). Com o menor contraste, fica mais difícil perceber a direção da luz, mas ela ainda é sua característica mais importante. Eu aprecio muito a luz da hora dourada em dias nublados, pois não só ela é suave como também não lança sombras embaixo das coisas, mas sim atrás delas, revelando formas de maneira sutil, porém altamente eficiente (a exceção, é claro, é em contra-luz). Desse modo, quaisquer formas côncavas na vertical (como pescoço e embaixo dos olhos no caso das pessoas, ou objetos mais largos no topo do que na base) são delineadas sem interferências.

Na foto acima, é a luz lateral que permite que a parte inferior do carrinho ainda fique um pouco iluminada, e a suavidade do céu encoberto que permite que as sombras embaixo dele sejam suaves, sem nenhum ponto em sombra absoluta: só há penumbra. Desse modo, os pés e pernas da mulher também ficam visíveis, e as formas de sua jaqueta e do carrinho de bebê ficam suavemente definidas pelas variações tonais. Também é a luz lateral que torna a textura das três camadas de rocha à esquerda tão definida, pois seus entrecortes se dão na horizontal. Por último, os balaústres não ficam tomados por sombras do corrimão sobre eles, tendo sua forma exibida sem interferência.

Se o dia não estivesse nublado, teria feito a foto do mesmo jeito, e talvez gostasse dela. Mas arrisco dizer que a luz chamaria mais atenção para si do que para o motivo, e ela não teria o comedimento que esta apresenta e que nela me agrada. Nesse motivo específico, sombras longas e dramáticas e contraste intenso não colaborariam com o universo de mensagens possíveis que eu tencionava transmitir.